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sábado, 2 de julho de 2016

Os frangos chegam ao posto de gasolina e pedem para completar com aditivada



Vou dizer que é assim mesmo, enquanto palito os dentes e arroto uma andorinha. Na gastronomia, há de se saber, só comemos quem não finge ser livre. Se frango soubesse voar, não comeríamos frango. Se porco soubesse voar, não… ah, você entendeu, não preciso dar três exemplos, isso não é uma piada. VÁ PARA O INFERNO, HUMORISTA. Dá trabalho o cultivo dos livres, essa é a verdade. Sempre fica uma carninha no beco dos molares, é gostoso enfiar o palito lá no fundo, sangrar a gengiva, uma chupadinha não seminal, semi-essencial, há quem diga que se pode beber 2 litros de sangue antes de enjoar. O lado sombrio é úmido e mofa com a força dos segundos a nossa quintessência. Vou dizer que é assim mesmo, queremos tanto ser limpos que sangramos despercebidamente, na falta de um sentimento mais sincero, é bom sentir nossa segundessência escorrer. JAMÓN. POLLO. Enfia mostarda nessa merda. Não, espera, é maionese. São dois amantes que apertam saches de maionese sobre peitos de frango. É isso que é, sabe. Dois frangos amantes foram mortos e seus peitos assados para dois homens enamorados os comerem enquanto falam sobre a possibilidade do Nacional avançar na Libertadores da América. Sabe, na Europa eles têm a Liga dos Campeões. Nós temos a Libertadores. Eles já são vencedores, nós ainda procuramos alguma liberdade. As palavras dizem muito, principalmente quando querem dizer outra coisa. Se dois homens podem falar sobre futebol na maturidade da tarde devem possuir alguma liberdade, por isso comem os frangos, que não possuem nem a liga dos que são campeões nem a liga dos que querem ser livres, nem colocam maionese sobre seus milhos, nem voam, nem amam. Fomos educados para pensar a individualidade, nunca a estrutura, por isso, se o frango é morto sem nunca ter “vivido a vida”, sem nunca ter “encontrado algo para amar e morrer para”, logo queremos chamá-lo de filhos das putas, no plural mesmo, e arranque de uma vez seus coraçõezinhos e meta-os no espeto. Os homens partem, deixam seus lanches pela metade sobre a mesa. Esbanjar é o jeito borbulhante de ser livre. OS PÁSSAROS VÊEM E COMEM OS PEITOS DOS FRANGOS. Se sabiam que eram frangos? Claro que sabiam. Comiam com gosto, com aquele sabor imperial que escorre bico adentro, degustando a maciez da carne nascida para ser cortada. Está tudo escrito nas estrelas, se tivesse feito astronomia ao invés de Wizard você saberia. “Sabe, é muito bom comer frango”. Disse o pássaro number one. “Sim, frangotes preguiçosos, burros, que não sabem voar”. Disse o pássaro number two. “Tic, tic, tic”. Bicou o pássaro number one. “Tá afim de ver a semifinal da taça pássaros voadores da Oceania?”. Perguntou o pássaro number two. “Já era”. Disse o pássaro number one.
The birds were flying high, very high, when a bullet killed both.
“Nossa King Number Five! Você matou os dois passarinhos com um tiro só!”. Susan exclama. Seu silicone está em temperatura ambiente. Susan poderia ser a má musa de uma boa música (artistas são tão degradantes e previsíveis, arranquem-lhes os violões e absolutamente nada sobra). Deus pergunta: “Por que você matou os bichinhos?”. King Number Five responde: “Melhor que comer o fraco é matar o livre”. Todos que assistem o Killing Show da vida batem palmas pela resposta de King Number Five. Deus desliga a televisão e enfia os pés nas pantufas de um jeito cabreiro. Quando pensou em fazer este filme, nunca imaginou que trabalharia com atores tão ruins.
“As verdades são ilusões que esquecemos”. Eu disse para Deus.


Apêndice:
“Você é bom, meu filho. Consegue ser vegetariano, adotar um gato e ficar em paz com sua companheira?”. “Eu gosto muito de frango”. “Mas você é perfeito para o papel que eu estou pensando”. “Eu não posso comer um frango vez por outra? Não precisa ser todo o dia…”. “Não”. Deus é imperioso, percebe-se nas entrelinhas. Nas estrelinhas também. Mas aí entra novamente a astrologia e… “Eu já não como mais mamíferos”. “Não me enrola, é vegetariano. Ovo e leite eu até libero”. “Não consigo”. “Porra. Vou ligar para o Emilio Echevarría então”. “Ele é vegetariano?”. “Não sei. Mas eu gosto dele”. “Eu também. Em amores perros, foi divino”. Deus me olhou com compaixão. Esse tipo de elo não acontece todo dia. “Tudo bem, tudo bem. Mas é um frango por semana! Acho que consigo fazer de você uma estrela”.


Tiago André Vargas
02.07.16


Fotografia tirada em um posto de gasolina em janeiro de 2016 em montevidéu. Pássaros terminam o lanche do casal que sentava ao lado.


domingo, 29 de novembro de 2015

Quando você monta em um leão não dá para apear



Você me olha como uma porra. Você me olha como uma mulher feliz no zoológico no momento excelso: a jaula do leão. Você me olha como uma mulher que não leu Beauvoir e teme a beleza do fio de cobre na garganta de um amante de diamante, pensando que, se não é vaidade, deveria ser amor. Você não diz isso para o leão, que sou. Você joga uma pipoca pela grade. Ela tem sal. Cai no meu olho. De leão. Eu poderia rugir, mas, sefoder. Você jogou uma pipoca pelo meu bem. Você jogou uma pipoca porque você possui uma pipoca e é isso que se espera de alguém com uma pipoca. Você. Sefoder. Deixo meu pau de leão rubro e inchado, como se trinta e duas abelhas tivessem picado minha pica. Você fica tão vermelha quanto minha glande. “Que horror”. A vida é um horror, queria poder dizer, esse pau é um presente. Mas só posso rugir. E eu não vou rugir. Se eu rugir as pessoas jogarão mais pipocas, as pessoas tentarão tirar a foto excelsa da minha boca aberta. (Eu aprendi hoje a palavra ‘excelso’ no dicionário de pensamento felino). As pessoas gostam das garras, dos dentes, gostam de dizer que gostam das garras, dos dentes, mas as pessoas fogem de um leão solto. As pessoas não suportam o olhar frontal de um animal livre. Não suportam um pau roxo da cor do palato do céu do sentimento. “Você parece um leão com esse cabelo. Deveria cortar”. Ela me olhava de baixo para cima. Um ângulo que favorece minha juba. Ela corre os dedos pela minha juba. Ela olha com fascínio minha juba. É o momento que nasce ou morre o amor. EU SEMPRE QUIS TER CONSCIÊNCIA DESSE MOMENTO. Se eu falar que cortarei o cabelo bang! O amor está morto. Não sabia se o queria vivo. Sempre quis a consciência desse momento e agora me arrependo de tê-la. Eu aprendi que a morte é algo ruim. Sempre. Eu deveria ter lido Céline ao invés do dicionário de pensamento felino. Eu falei: “Sefoder. Sou a porra de um leão”. O amor que nasce de uma contradição é dois miligramas mais forte. Ela me olhou como Beauvoir o fez com Algren, quando descobriu que o pau e a vida de alguém que sente são muito mais interessantes do que o pau e a vida de alguém que pensa. Ela. A cabeça apoiada no meu colo. O olhar de baixo para cima. O meu pau cutuca a sua nuca, ela sorri, meu pau cutuca novamente, ela sorri e fica angustiada, sabe que a próxima cutucada é só uma questão de tempo, que acontece, ela dá uma gargalhada e abraça minha barriga. Volta. Fica séria. Olha para os meus olhos de leão sincero e de pau inflado. “Sefoder. Sou a porra de uma mulher”. Se ela falasse, o amor nasceria em mim. Ela não falou. Em um silêncio mágico de vidro agitando o alívio do vento alísio ela me deu sete orgasmos, um par de asas e um rabo de serpente. Ela montou em mim. Colocou a serpente ao redor do pescoço delgado, como se fosse um cachecol verde com olhos malignos de rubi, depois deu um tapa na minha anca e gritou: “Avante!”. Eu bati minhas asas de grifo. O céu nos abraçou. O céu tinha passado perfume de ameixa. “Vamos para onde?”. Sou um leão taxista das galáxias. “Me leva para onde você tem medo”. Existem várias oportunidades para o amor nascer na floresta da catarse.
Ela mordeu meu pescoço, enquanto voava.
Eu rugi.

29.11.2015
Tiago André Vargas

Fotografia de Art Shay. Reza a lenda que a modelo é Simone de Beauvoir, que, surpreendida ao tomar um banho de porta aberta, disse para o fotógrafo "vous êtes un mauvais enfant / Você é uma criança má". E continuou seu banho deixando que ele a fotografasse.

domingo, 30 de agosto de 2015

A veleidade também se levanta



A história da humanidade é a história das guerras. A história de um homem é a história da humanidade. O mundo é bão, Sebastião; que agora o repudia: acha-o por demais Salgado. Tempero de lágrima é sal, nunca a gosto. Cães gostam de lágrimas, secar-lhe-ão, pelo sal, secar-lhe-cão, pela fidelidade. O que eu quero dizer é que você tem que fotografar o mundo e comover as pessoas, de preferência antes que elas peçam suas pizzas. A comoção é opcional, os farináceos inevitáveis. Está tudo bem assim; alguém se comoveu olhando um retrato e depois o esqueceu nas bordas da memória de catupiry, entenda, a arte nunca venceu e nem vencerá a fome, está tudo bem assim, a heurística só excita a alma quando não existe o corpo, e, para anular o corpo, só satisfazendo-o, embalar essa grande matéria que nunca deixará de ser um bebê; Byron vai dizer: O único jeito de findar um desejo é entregar-se a ele, que assim seja, de coração aos fisiológicos: Dormir, comer, defecar. Estes nunca fizeram mal a outrem, diferente do sexo; Cleópatra sabia muito mais de pirâmides do que Maslow. Sexo é necessidade do ego e do ovo, do ovário e do salto, da fuga e do asfalto, do espelho e da esfinge, do pau e do selfie. Freud toca nas trompas do trompete um jazz triste que incomoda uma legião de cães urbanos. Ou vai dizer que alguém tem filho preocupado em manter a espécie? Que raio de espécie? Se fosse assim tirano algum teria filho, de outra maneira, não poderia com ideologia matar o dos outros. Perpetuar a espécie? Se, mais que A espécie, eu sou O mundo! Como é que se dorme com um vizinho desses? Que o punhal de Macbeth nos proteja, pois é a entrega incomensurável dos desejos dessa minoritária e poderosa raça - os porcos dípodes de barriga dourada – que reflete a miséria premeditada, por eles tão bem escolhida, uma vez que, a tristeza cinza contrasta com maestria suas suntuosas barrigas. Eu vou dizer. Só voltando para Gênesis mesmo, começar pelo começo: acaba-se com a fome, faz-se um teto, transporta-se para longe as fezes (saneamento básico é uma expressão desaforada, jargão político social que não diz nada). O que realmente diz alguma coisa é febre tifóide, cólera, hepatite A, giardíase, leptospirose. Tem gente que não consegue comer se alguém contar uma historieta sobre fezes, só à alusão ao excremento já lhe causa repúdio, imagine se alimentar próximo não de uma, nem duas, mas das fezes de toda uma aldeia, acumulando-se dia após dia. Saneamento básico, não é básico, não é roupa preta, só se for de luto, pela indiferença desse grande velório festivo que é a nossa espécie. Primeiro comer, depois abrigar, por fim adormecer. Só depois desse estágio o sonho é permitido. Então lemos Hemingway e queremos viajar. Espanha, África. Escutaremos músicas. Olharemos fotos, de preferência, as que nelas não estejamos. Está tudo bem assim. Então nos deparamos com a fotografia de alguém privado de tudo que nos falaram que é básico, essencial, fisiológico, milhas e milhas deste maltratado corpo poder adormecer e depois sonhar. Inadmissível! Um ficou para trás! Você disse que já são mil? Como assim milhões?! Na quantidade, seremos tocados? Nessa foto, única, sim. Um nó nas tripas pela mão da angústia, mas que, inevitavelmente, será desfeito pela fome imperiosa que toca na porta do estômago dos mais e dos menos afortunados. Pediremos uma pizza. É assim que tudo termina?
A história da humanidade é a história das guerras. A história de um homem é a história da humanidade. Se tiver uma orquídea peristeria na sua casa e você não deixá-la morrer de fome, é pouco. Ainda assim, é algum tanto. A história da desumanidade, é a esperança. Talvez não esteja tudo bem.
Assim.

30.08.2015

Tiago André Vargas

Fotografia de Sebastião Salgado.

Obs: Esse conto só nasceu pela influência do documentário O sal da Terra, vida e a obra do fotógrafo Sebastião Salgado. O título é emprestado do livro O sol também se levanta, de Hemingway. Ainda, o cão a lamber lágrimas é referência ao cão da fotografia, mas, também, ao cão Achado: personagem da bela história de Saramago no livro A caverna, cão este que em uma linda passagem se põem a lamber as lágrimas do dono.




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domingo, 2 de agosto de 2015

Apostasia ou Os ingleses cantam ou Em nome da mãe



Minha mãe e Kierkegaard, aos seus modos, pensaram o que era ser um bom, ou apenas, um cristão. Ambos sentiram que algo estava errado: o rapaz, de nome difícil de escrever, com a dialética e minha mãe através dos joelhos. Minha mãe não tem bons joelhos. Minha mãe dizia que é preciso se ajoelhar, mas sentia que não o era, mas eu precisava me ajoelhar, pois preciso era. Eu ainda não li Kierkegaard. Eu ainda não li minha mãe, apenas a exegese, que é mãe. Minha mãe diz que é preciso se ajoelhar. Sua pessoa além mar-mãe questiona. O comum dessas personas é a dor no joelho.
Algum inglês irá cantar dentro do meu ouvido: você é o único deus que eu preciso.
Eu fiz a catequese e vi meu melhor amigo escutar, de cabeça baixa, outro menino blasfemar qualquer coisa sobre Jesus, pregos, homossexualismo, Madalena e putaria. Na volta eu pegava carona com meu melhor amigo em uma Kombi, ele tinha vários cães com pulgas, eu levava as pulgas comigo, eu sempre me coçava depois da catequese, minha mãe podia pensar que eu era um anátema, que eu tinha o capeta embaixo do couro, mas minha mãe não podia falar que pensava tal coisa, era como ficar de pé quando todos se ajoelham.
Se os ingleses não fossem cercados pelo mar, fariam menos músicas. Se o mar não transladasse da água até qualquer coisa que nos encerra não haveria música. Dentro da igreja qualquer som fica mais bonito.

Decorei várias orações, mas foram poucos os olhos que, mirando-os, enterrei minhas armas e confessei amor. Os ingleses não sabem amar, por isso cantam. Minha mãe nunca foi pontual. Eu menos. Haverá quanto tempo para dizer que te amo? Time is on my side. Oremos.

Tiago André Vargas

02.08.2015

Cape cod evening, 1939, Edward Hopper.

domingo, 31 de maio de 2015

Rebento



Não existe bom fim. “Você deve colocar essa fita no pulso e fazer três desejos; até o dia que a fita romper eles estarão realizados”. Nós velhos não sentimos saudade da infância. Não há como saudar o esquecido. Ela era da Bahia, tínhamos idade para fingir não sermos mais crianças. “Você sempre cheira a protetor solar? Me dá vontade de ir à praia”. Ela era uma criatura com vontades, eu pensava ser original, mas ainda era muito asséptico para saber qualquer coisa, com as unhas curtas não era capaz de rasgar minha ventura. “Essa chuva que cai no fim da tarde me dá vontade de tomar sorvete”. No início eu perguntava “por quê?”. Mas ela sempre dava de ombros. Os dois ombros subiam, a cabeça deitava, no esquerdo, e o pescoço se mostrava agradando os três orixás. Ela sabia das suas vontades, não dos seus motivos. “Quando eu passo a mão no pelo das costas de Catatau, no sentido contrário, dá uma agonia”. Escorrer os dedos pela penugem sempre foi uma manifestação de desejo. Naquela época eu nada sabia, mas, talvez, pressentisse pela maneira como sua respiração sibilava que ela ansiava por contato. Que alguém puxasse suas orelhas, lambesse suas costas, mordesse seu calcanhar. “Quando esse cachorro me olha assim, quieto, até me dá vontade de achar que ele é gente”. Eu desejei por três vezes beijá-la e amarrei com tanta vontade aquela fita que machuquei o meu pulso. “A sua fita, como está?”. Infelizmente estava intacta. O amor não parecia ser algo afiado o suficiente para romper. Perguntei como estava a dela. “Linda”. O que ela teria desejado? Saúde para os seus pais. Vida longa a Catatau. Mas não com dois desejos, utilizaria um único desejando saúde para toda família. O segundo desejo seria idílico, aposto: como que o sol sempre brilhasse, que as ondas do mar nunca se cansassem de cortejar a areia, que ela pudesse um dia viajar pelo espaço. A lua de Salvador era esférica, uma moeda que brilhava muito e me fazia pensar estar com sorte. “Um dos meus três desejos foi que desse tudo certo com o seu avião quando você voltar para casa”. Algumas lembranças são de aço, tantas esperanças delicadas e bem arquitetadas se perdem como teia em ventania, triste linha, que toca com os três dedos a janela nos lembrando que tudo pode se desfazer. Se você tentar trapacear as regras da crença precisa ser com o peito aberto por Oxum, segurar os cabelos como se dependesse a vida e beijar como se fosse engolir o mar. Era o meu primeiro amor e eu não sabia de nada disso, era noite, sentia o cheiro de protetor solar. Toquei a sua mão. Morna. Me inclinei, ela se afastou. A fita está dentro de uma caixa, mas a caixa está esquecida. “O que é isso menino?”. Ela se desfez pela noite e ninguém poderia salvar a minha dor. Nunca retornei para àquela cidade. “O que é isso menino?”. Isso é uma memória se criando para um velho lembrar enquanto olha a lua turva de São Paulo. No momento eu nada respondi, apenas tentei rasgar a fita.


Tiago André Vargas

31.05.2015


Lagoa do Bonfim, longe da Bahia. Rio Grande do Norte.

domingo, 17 de agosto de 2014

Doce a salgado



Na corte não há corte.
O palhaço coleciona dentes, a criança mata insetos. Ambos o fazem por resposta, a porta trancada separa o medo da pergunta.
Eu prefiro doce a salgado, foi o que ela disse, no primeiro encontro.
Mas minha pele tem gosto de incerteza, especialmente na chuva de setembro.
As palmas nos ombros, um suspiro, nova voz serpenteia a gruta do meu caminho, até o lago do meu abrigo, um poço sem carinho, uma volta sem destino.
No aeroporto eu fiquei sozinha, em frente a um homem de relógio niquelado, o plano de fundo na corrida dos ponteiros era azul. De um azul muito vivo, fugitivo dos olhos terrenos. Anil. Eu queria ser sua amiga, ou roubá-lo o relógio. Aquele relógio me faria ser rainha, teria perenemente o semblante de quem está com sorte no baralho, mas ele, bem, ele parecia ter velado alguém que amava.
Sua dor combinaria melhor com o pulso nu.
Teria ele matado algum inseto como resposta?
Teria ele treinado para provocar sorrisos como se isso fosse belo, ou ainda, digno?
Ele me olhou, entrementes.
Eu sorri.
Meu sorriso bateu no seu rosto e voltou, impassível, como luz no espelho. Mas. No retorno, eu, tampouco, estava lá.
Eu gostava de ser acariciada pelas suas mãos, sentir a pulseira me tocar com gelidez repulsiva.
Eu ainda prefiro doce a salgado.

Nós passamos, o tempo fica.
Ele disse.

Na corte não há sorte.

Ele se calou com o coração caloso.
Precisou voar.
Alguém disse.

Tiago André Vargas

17.08.2014


Pintura de Georg Baselitz

terça-feira, 17 de junho de 2014

Eu escolho os nomes


Ela tinha uma voz vazada qualquer nota Carla Bruni e um jeito meio Hindi Zahra, e, por causa dessas semelhanças, eu queria a ouvir gritando quando mordesse o rosado halo do seu mamilo esquerdo, que, como todos sabem, é o lado da emoção.
- Custa quinhentos reais.
- Como pode custar quinhentos reais?
- Isso nem veio para o Brasil, senhor.
Ela era obediente, falava senhor. Olhei para os fundos da loja, não havia ninguém. Na verdade, ela era a dona daquele brechó, trabalhava sozinha, logo, deveria ser independente e inteligente. Provavelmente, insubordinada. Chamava-me de senhor para que eu me sentisse senhor, pois, somente um senhor pagaria quinhentos reais por aquilo.
- Mas… este veio para o Brasil.
- Exato! Provavelmente, somente este. Senhor.
Ela demorou um pouco para me chamar de senhor dessa vez. Esqueceu-se. E, ao corrigir, soou estranho. Olhei para sua pequena loja de brechó, opípara como a saudade. Pressupus que fazia poucos meses que ela estava à frente do negócio, guiada principalmente pela emoção, sem dúvida. Que admirável aquela mulher. Seu cabelo de grenha me inundou impressões feministas, que, sempre me atraíram. Sentia-me uma espécie de louva-a-deus diante de uma feminista, ávido para possuí-la e depois ter minha cabeça decepada.
- Minha mulher, puxa vida, se ela souber do preço… Bem, faz tempo que isso chegou?
- Eu comprei ontem, o dono teve que vender para pagar o aluguel. Não querendo pressionar o senhor, mas já teve duas pessoas que se interessaram. Um deles bem jovem, inclusive, fazia o tipo que iria convencer a mãe abrir o bolso e que correria aqui desesperado com medo que fosse vendido.
- Entendo, é uma raridade.
- Sem dúvida.
- E você gosta?
- Quem não gosta, senhor.
- Minha mulher não gosta.
Ela me olhou com pena, e, até com certa compaixão. Não, ela não transaria comigo, não faço o tipo louva-a-deus, ou, louva-a-ela. Pareço-me mais com o besouro rola-bosta deslizando no vórtice enfadonho do matrimônio. Mas, eu precisava reverter aquilo, ou se não aquilo pelo menos algo, não podia simplesmente sair da vida daquela mulher com essa esquálida impressão causada. Ela era livre demais para que eu fizesse isso.
- Vou levar, e, trate de ser gentil com o menino quando ele voltar com o dinheiro e se colocar a chorar.
- Serei gentil sim… – Ela sorria misteriosa, como um mamífero bem alimentado no calor – Você fez uma ótima compra, sem dúvida, mas deixe longe dos seus filhos, gasolina, sabe como é.
Que senso de humor delicioso. Ela piscou o olho debochado, ciente que fizera um gracejo pouco engraçado, mas, engraçado, pela graça que existe no caminho percorrido ao deixar-se de ser desconhecido. Não me chamava mais de senhor. Seria pela intimidade ganha ou pelo fato de já ter me assaltado?
- Eu não tenho filhos.
Falei como um elevador. Repercutiu disperso, informativo, triste. Parecia que eu tinha feito vasectomia. Que minha mulher além de não gostar do Tarantino também não queria engravidar, o que, era correto.
Que vida fodida, ela era linda e o agora era um adeus.
Saí com minha lata de gasolina embalada nas mãos, dentro, a coleção comemorativa de 15 anos do filme Cães de Aluguel.
Dentro da sacola, Mr. Pink comentou para Mr. White que a mulher da loja inclinou o pescoço ao ver meu bumbum. Mr. White disse que era bobagem, mas Mr. Pink assegurou que uma mulher tarada por Tarantino gostava de brincar com fogo tanto quanto Mr. Blonde. Todos riram. Mr. Brown, recuperando o fôlego, disse que era um erro predizer uma mulher dessa maneira, sem cogitar a possibilidade dela querer se sentir como a Madonna, você sabe, principalmente quando se tem um belo bumbum.
Novamente gargalhadas.
Eu?
Eu estava triste e pensativo, conjecturando a exatidão da minha tristeza. A mulher nem ao menos me disse o nome dela. Mr. Pink negou com a cabeça, na vida, eu ainda era um amador. Mr. Blonde disse que ao menos eu tinha um belo bumbum.
Todos riram.
Eu?
Subi na bosta e rolei para casa, com a certeza que jamais veria este filme novamente.

Tiago André Vargas

17.06.2014



Imagem de Lewis Turner.



quinta-feira, 22 de maio de 2014

Inventário de uma sombra pela herança do tempo



O tempo é uma lobotomia constante para suportarmos o tempo.
Lorca viajando para Madrid ainda é um sino na minha mente. O poeta mente. É o que pensa quem não consegue ninar o amor enquanto mina sua essência mais nobre no dente afastado ao vestir-se de luto para atravessar um milharal e, escondido no sabugo, alguém ama a menina até descobrir sua vileza. Fica nos pés apenas a coceira fomentada pela solidão, remédio sim, remédio não.
Na meninice meu mundo estava no segundo andar de um pé de goiabeira. Meus pés já eram tortos, apesar da ausência do pruído, e a casca lisa do tronco sempre me acolheu meio amante, meio filho. Em estulta adultícia achei que o amor ficava em alguma parte do nada que o vento sacode, árvore frutífera que raio não tem ímpeto de tocar na mesma ojeriza do olhar atravessar a fruta caída pelo pecado de reviver quem requestou ninho em nosso sozinho e agora é só um moído puído de baixo da unha que raspa o cabelo na procura do sentimento que nunca esteve lá.
Amores morrem de cabeça para baixo nos galhos do passado, secos no asco de nunca despencar e sumir. Leia novamente, eu disse passado. O tempo é lobotomia. Paixão é fogo em pau velho, depois nada sobra, exceto nascer de amor, se houver amor é semente de bergamota cuspida para cima.
Para cima.
Meus pés tortos querem ir para cima.
Há uma goiabeira de olhos grandes lá em cima. Nada além eu conheço, mas me conheço no curioso piado de coruja descobrindo o que está encoberto pelo não acontecer.
Se for, morrerei.
Finado por ausência.
Meu inventário é tão raso quanto um vidro quebrado: Sombra da nuvem para você lembrar que vivo, sentindo mais perto de si outra companhia já que a ausência está nestas palavras de janela sem vista, só existe a provocação do instante e você lembra que no peito há alguém do outro lado.
Se a nuvem carregar chuva, sou eu.

Tiago André Vargas

20.01.2014

Pintura de asahinoboru

domingo, 4 de maio de 2014

Librei



Trovejou no céu um tambor carregado de ódio terreno.
A lebre assustada rezou. Uniu as patas untadas de orvalho e, olhando o céu plúmbeo através dos círculos concêntricos de uma teia sem sua artífice, indagou quantos graus eram necessários para uma nuvem desistir da equação.
Aquela lebre tremia com a agudeza sonora que lhe entrava nas grandes orelhas impolutas no vórtice da solidão, não raras vezes, escutando o estalar do tempo na alma dos pinheiros. Girava ritmicamente seu pequeno crânio, cada curto e rápido movimento era acompanhado do pensado Onde está? Onde está? Onde está? E, quando fechava pausadamente os olhos, concluía: o meu lugar…
A lebre librava imprecisa a sua vida. Como a outros tantos seres acontecia, soterrada pelas variáveis líquidas que nada mais são que cegos escafandristas, pegadas leves na areia marina que a emoção move, remove, comove e desfaz, atônita e aflita, a lebre singrou e nada pesou na analítica balança temporal. Trovejou a equação. Cortou o pensamento de maneira incisiva com os precisos incisivos.
Dividiu o pensamento.
Pediu por amor.
Trovejou no céu um tambor carregado de ternura terrena.
Um pássaro bardo do signo de libra disse à lebre para librar o sentimento até livrar o medo e lavrar a promessa. Ela não entendeu. Ele beijou-a com seu bico, sutil como a lembrança de algo que não aconteceu. Ela pediu uma música. O pássaro fez melhor. Construiu um ninho em uma das grandes orelhas e a lebre não mais librava, afirmava com a convicção dos pinheiros que as nuvens eram solidárias com as equações de primeiro grau, quando puras como as emoções de primeiro grau.
Dividiu o medo entre trilados e trovões.
Cada orelha um destino.
Desfez a teia, seguiu caminho.

Tiago André Vargas

04.05.2014


Imagem de Seth Fitts.



domingo, 6 de abril de 2014

Sal na idade



Eu te roubei o título, você minha paz.
Saudade. Sal na idade. Tenha viço ao te provar e quem não devorar que tampouco venha lamber.
Partidário alpinista otimista opiniático: você não deveria estar aqui.
Mas tudo bem, so do i. No inglês encaixa melhor que eu também. Assemelha verossimilhança com só dói. Acabaram os cigarros. Sempre achei piegas a palavra piegas bem como escrever em inglês, disfarço minha culpa e peço desculpas à língua portuguesa que tão bem abraça e expurga meus anseios e desalentos no seio desta página inexistente, para tanto imponho um itálico paralítico na palavra do tio são, não obstante, também acho desnecessário escrever sobre cigarros, é redundância pura, fumar-escrever, redundância puta que amputa o vocábulo da tristeza.
Por isso, homem feliz, você não deveria estar aqui.
Cientistas céticos, enólogos artistas: mais perto.
Se a dor que te aflige é a solidão ofereço-te uma cadeira. Outras tristezas que sentem no chão na bem intencionada preparação de rigidez que a vida à bunda aconselha, impõem. Um legítimo cicerone carregando seu Cícero pela vida. Não é bonito isso? Se for, é.
Mais belo do que isso é o amor da sua vida na novelística trama da conveniência aberta vinte e quatro horas emergir como vizinha. Cuidado com a solidão, essa exímia roteirista. Colega da creche, da escola, da universidade para os menos afortunados. Cuidado. A teledramaturgia sempre justíssima com a meritocracia do amor não vai esquecer de você, basta não esquecer da oferenda à conveniência via de regra adornada pelo amar por pena na ode simbiótica da falha luta contra a miséria da singular existência. O falo e o farelo olham juntos escorados na janela a cidade escarnecer todos os argumentos que anoitecem o sentimento, pois eles são pragmáticos ao confutar o amor adjacente, alegando que é a carência comodista que cria o que se sente. Just 'cause you feel it Doesn't mean it's there. O falo, atrevido e sabido sempre olhando para cima ainda argumenta com rude sapiência que são tantas galáxias, são tantos planetas, que seria altaneiramente presunçoso crer-se agraciado com um amor intergaláctico na felizarda geografia do amor à vizinha, ou ainda o amor de berçário desinformado da mística paz salina que carrega o tempo sobre a idade três luas depois de sentir saudade do inventado.
Queria para caralho mais um cigarro, escrevi outra vez cigarro, o mesmo fiz com palavras inglesas, sou piegas e é rejuvenescedor como banho de mangueira derrubar alguns conceitos, todavia não é toda via que vai me levar para este almejado lugar algum onde pousa o sentimento ansiado antes da falta, impassível à maleabilidade que com tanta habilidade adaptamos o fadário a um roteiro esquematizado sobre nós mesmos. Quem mais seria? Prós e Contras é uma dupla de mau gosto que a dúvida não deixou se quer cantar uma música.
Precisamos escolher nosso nome (mire o cavaleiro da triste figura) e inventar nosso amor.
E como um planeta, dei toda esta volta por ser preciso.
Precisamos escolher nosso nome. Inventar nosso amor antes de conhecê-lo e depois refutá-lo com ares de cientista bêbado, ou ainda artista cético.
O meu está em uma das luas galileanas que dançam com Júpiter, único capaz de suportar este amor.
Uma lua com sal.
Lua com sal que eu, alguns cientistas e T. Yorke acreditamos ter vida.
Uma lua com sal.
Um sal de idade.
Sal na idade.
Até fazer saudade, de um amor terreno sem espaço tempo que mesmo sem o veredicto dos dedos não há legião ou solidão que me façam desacreditar estar aqui.


Tiago André Vargas

30.03.2014

Imagem de James Knowles

domingo, 10 de novembro de 2013

Emalado paraíso de anemia













Displicentes autofalantes cantam flume isolando-me em um universo de lataria gradeado pelas percepções dos vidros de areia e mentira, meu corpo trafega na mesma vastidão que galgam os pensamentos: condicionado ao fluxo de terceiros. Referir-se à humanidade como terceiros é o prenúncio da renúncia do amor. Dessemelhança. Quer escolher alguém? Só o amor é todo cor de vinho e cá estou, rodando através da pneumática para um destino indiferente.
Chove.
Pelo mesmo vidro assisto as pessoas correrem. Elas colocam objetos sobre as cabeças, olham obstinadas para um metro à frente dos pés. Pássaros ouvem um disparo.
Em uma paisagem azáfama algo estático salta-me aos olhos em completa homogeneidade, abrupto e feroz, sinto o desejo de referir-me a ela como uma primeira, assemelha, estanco a compassada locomoção em prol das minhas fagulhas que acreditam em algo todo cor de vinho.
Ela tinha o cabelo desprovido de cor, olhava para o céu escuro com olhos claros, banhada pela água e à margem das lágrimas, olhos luzentes suprimidos pela atmosfera soturna de um céu impresso sem tinta. Segurava uma maleta em frente ao peito, como se esta pudesse proteger seu coração de algo.
Ela olhou minha face e começou a chorar. Sentia uma dor tão extensa que não poderia despejar aquelas lágrimas sem plateia. Talvez necessitasse ser vista para compreender que tamanha dor sentida era real. Eu via a tez pálida como envoltório de sua consistência desesperançada e mortuária, seu espírito afogado através da incredulidade das corridas de terceiros pelas calçadas molhadas enquanto ela, erma e estatelada, buscava algum alento no céu e a maleta obsoleta era segurada com os resquícios do sonho a lamber os dedos: um emalado paraíso de anemia.
Contive o impulso de sair do universo de lataria, trocar uma palavra errática com aquela santa que não mendigava fé, beijar-lhe os doentios lábios verde-mar e acariciar seu cabelo enxugando chuva embalsamada que umedece todo bicho que sofre sozinho.
Os terceiros no universo de lataria começaram a se movimentar, eu os acompanhei, não meus pensamentos.
Torci o pescoço e avancei até não mais poder vê-la.
Minha alma permanecia pousada sobre o nó anelar, algo courino tocando uma alfazema, em conjunto àquela mulher que sofria úmida e de corpo abraçado à maleta. O que haveria dentro desta?

Um buzinaço.
Um pneu gemendo estridente.
Um carro capota à minha frente.
Vidros de mentira foram estilhaçados, corpos foram desmembrados e gritos de histeria contaminavam ainda mais a chuva chumbo que caía. Muitos saíram de suas latarias e correram no encalço da tragédia concebida, figurantes do dia a dia esperançosos pelo momento de usar suas fantasias.
Nada fiz.
As verdadeiras tragédias nunca são contempladas, tampouco remediadas.
Segue meu fluxo de pensamento.
Segue meu destino indiferente.
Segue a dor de alguém que alaga a calçada.
Ciente.
Eu estava dentro daquela maleta; exausto em me segurar, semoto para me abrir, absorto na incredulidade que algo há para salvar.
Como a chuva, só podemos cair. Um arrepio na medula e a vida, irão passar. 

Tiago André Vargas

10.11.2013





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