quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Triste trigo aos tigres





Não estou triste senhora
Sou triste
Enquanto houver trigo dou aos tigres
Triste trigo
Trigo triste
Depois dou meu pranto
No prato para os tigres comer
Depois dou um riso
Dois gritos
Três tiros
Derrubo dois tigres
Um sou eu
Outro é ninguém

 Tiago André Vargas
17.10.2013


Pintura de Salvador Dalí.

domingo, 10 de novembro de 2013

Emalado paraíso de anemia













Displicentes autofalantes cantam flume isolando-me em um universo de lataria gradeado pelas percepções dos vidros de areia e mentira, meu corpo trafega na mesma vastidão que galgam os pensamentos: condicionado ao fluxo de terceiros. Referir-se à humanidade como terceiros é o prenúncio da renúncia do amor. Dessemelhança. Quer escolher alguém? Só o amor é todo cor de vinho e cá estou, rodando através da pneumática para um destino indiferente.
Chove.
Pelo mesmo vidro assisto as pessoas correrem. Elas colocam objetos sobre as cabeças, olham obstinadas para um metro à frente dos pés. Pássaros ouvem um disparo.
Em uma paisagem azáfama algo estático salta-me aos olhos em completa homogeneidade, abrupto e feroz, sinto o desejo de referir-me a ela como uma primeira, assemelha, estanco a compassada locomoção em prol das minhas fagulhas que acreditam em algo todo cor de vinho.
Ela tinha o cabelo desprovido de cor, olhava para o céu escuro com olhos claros, banhada pela água e à margem das lágrimas, olhos luzentes suprimidos pela atmosfera soturna de um céu impresso sem tinta. Segurava uma maleta em frente ao peito, como se esta pudesse proteger seu coração de algo.
Ela olhou minha face e começou a chorar. Sentia uma dor tão extensa que não poderia despejar aquelas lágrimas sem plateia. Talvez necessitasse ser vista para compreender que tamanha dor sentida era real. Eu via a tez pálida como envoltório de sua consistência desesperançada e mortuária, seu espírito afogado através da incredulidade das corridas de terceiros pelas calçadas molhadas enquanto ela, erma e estatelada, buscava algum alento no céu e a maleta obsoleta era segurada com os resquícios do sonho a lamber os dedos: um emalado paraíso de anemia.
Contive o impulso de sair do universo de lataria, trocar uma palavra errática com aquela santa que não mendigava fé, beijar-lhe os doentios lábios verde-mar e acariciar seu cabelo enxugando chuva embalsamada que umedece todo bicho que sofre sozinho.
Os terceiros no universo de lataria começaram a se movimentar, eu os acompanhei, não meus pensamentos.
Torci o pescoço e avancei até não mais poder vê-la.
Minha alma permanecia pousada sobre o nó anelar, algo courino tocando uma alfazema, em conjunto àquela mulher que sofria úmida e de corpo abraçado à maleta. O que haveria dentro desta?

Um buzinaço.
Um pneu gemendo estridente.
Um carro capota à minha frente.
Vidros de mentira foram estilhaçados, corpos foram desmembrados e gritos de histeria contaminavam ainda mais a chuva chumbo que caía. Muitos saíram de suas latarias e correram no encalço da tragédia concebida, figurantes do dia a dia esperançosos pelo momento de usar suas fantasias.
Nada fiz.
As verdadeiras tragédias nunca são contempladas, tampouco remediadas.
Segue meu fluxo de pensamento.
Segue meu destino indiferente.
Segue a dor de alguém que alaga a calçada.
Ciente.
Eu estava dentro daquela maleta; exausto em me segurar, semoto para me abrir, absorto na incredulidade que algo há para salvar.
Como a chuva, só podemos cair. Um arrepio na medula e a vida, irão passar. 

Tiago André Vargas

10.11.2013





sábado, 2 de novembro de 2013

Grito justificado





O grito
Socialismo
Sozinho
Quem grita?

O grito só é justificado se seguido de morte
Doutro, grito desnecessário
Traz azar o grito de sorte
Cria solidão o grito do amado
A máquina também liberta seu brado
Um disparo
Não contra o sol
Mira no estômago pois lá não há amor
Sempre gostei daquele que ao ser baleado toca o próprio corpo
Como se nada o tivesse alvejado
Nenhum grito
Bravo soldado
Morre como nasce: sem saber
Contudo não chora
Somente procura
Não grita
Procura
E encontra
O grito da morte
No coração do ouvido
Absorvido
Por um pulsar inacabado

Grito justificado
Tiago André Vargas
12.09.2013


Imagem de Félix Vallotton.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Sucedâneo primata















O osso calcâneo
Só olha para trás
Não há gerânios
Ou pelugem lilás
Existe a sucessão
Cinza sucção
Negra ilusão
Doce sanção
E o pri(mata)meiro tanto fez e faz
Ternura apenas nos olhos do bezerro
Criança sorrindo na paz do enterro
E o pri(mata)vilégio que aqui jaz

L

17.10.2013

Tiago André Vargas


domingo, 13 de outubro de 2013

Encontro marcado





Joguei meus sapatos para cima e eles incendiaram ao tocar a liberdade de um céu sem nuvens. Azul sempre foi a cor do amor, sentimento aparafusado pela calmaria da água com a destreza de um avô consertando um brinquedo querido.
Mas nem toda água é azul. Eu sei disso por querer sentir como ontem.
Algum ontem.
Pés entremeados na terra lamacenta, sujeira reciclável, dedos sujos rasgados por vidros limpos. É necessário caminhar. Cheguei à margem do rio da minha vida. Contemplei-o da mesma forma que havia feito outras vezes. – Vezes. Qualquer número multiplicado por zero é igual a zero. Eu desenho o círculo perfeito. – Os mesmos tocos podres sendo carregados pela água turva, a mesma ausência de peixes, deferência e piano, o mesmo espelho lúgubre que delatava um monstro em tímido aproximar. Eu espiava sabendo o que seria revelado. – Sou uma morte perfeita.
Olhei no outro lado do rio e vi você.
Sua pele leitosa como um exército de margaridas pós holocausto me deu nojo. Sorri como um lobo e lhe disse que havia todas as respostas para suas perguntas ainda não formuladas no leito do rio, permitindo que pequenos silvos por entre meus dentes afiados escapassem elucidei que ter as respostas antes das perguntas era como colocar o dedo antes de surgir a ferida. E todo toque é bom quando não há dor. Você sorriu. Dois sextos do meu ser cogitou benquerer você, mas, não somos aquilo que queremos ser.
Saltaste na água com a força que eu desejava, projetei meu corpo logo em seguida.
Abri meus olhos e vi a sujidade dançar em líquido palco turvo, braços e pernas sempre tão errantes buscando algo, em nosso caso, profundo, pois somos feitos de lodo e não vamos parar até tocar o fundo.
E no fundo estamos amor.
Tudo é sujo e você é branca.
Tudo é barro mas você encanta.
Tuas vestes efêmeras são como pétalas que com dois dedos se arranca. Te hipnotizo sem olhar, puxo teu cabelo para trás, mastigo teu ombro no fundo do rio da sua vida.
E a cada segundo respirar menos importa.
Se entregue amor, sei como você gosta.
Abra sua boca e beba dessa água turva enquanto dança em meus braços. Vire-se para gozar dentro da minha íris, muito prazer, durante toda sua vida lhe esperei.
Sou sua morte sem encontro marcado lhe forçando o prazer de um último viver.
E tudo a água irá levar.
Menos eu.
Saio do rio sem estar molhado. Lá me aguardam novos calçados. É preciso caminhar e novamente assim o faço.
Sem olhar para trás, sequer para mim.
Um dia, você.

Tiago André Vargas
12.10.2013


Pintura de Andrew Wyeth.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

final das ondas contas





No final das contas
Há o quebrar das ondas
Nada há mais

O ambicionado final feliz
Enxertado em vida plim plim
Prostrado, também a onda irá levar

No ponto mais profundo – logo triste – do oceano
Acaso empilham-se pratos porcelânicos lavados em pranto
No ponto mais profundo – menos triste – do oceano
Um dia meu pó abraçará algum nó
Seu

No início das contas
Há o quebrar das ondas
Nada há mais


Tiago André Vargas
07.10.2013


Imagem de InoaLa.

domingo, 6 de outubro de 2013

Resenha do Livro Mariposas no Útero - Evento Literatura Caxiense Recente




Resenha de Karina Catuzzo Rodrigues:



Sangue e amor


Uma faca. Um alvo. Um suspeito. Promessas, ciúmes e amores enlouquecedores. Um livro para fincar na cabeça. Um vício. Relato de muito suspense que marca a boa estréia de Tiago Vargas.


Mariposas no Útero é a obra de estréia do caxiense Tiago André Vargas. Um romance misterioso, aventureiro e emocionante. O envolvimento familiar, amor de pai para filho, paixões e loucuras fazem o leitor participar da história de forma intensa.

Já no começo da trama um assassinato misterioso faz com que o leitor fique imaginando quem poderia ter cometido a maldade “Com as mãos sobre o estômago o jovem caiu de joelhos e sua boca que antes irradiava aquele belo e jovial sorriso agora era berço de um pequeno filete de sangue…”

Vargas é minucioso, faz descrições detalhadas, e isso leva os leitores a se prenderem cada vez mais na historia. E o romance traz muitos personagens: Josh, Andréia, Débora, Mayara, Roberto, Afonso… Mariposas no Útero começa com um encanto por uma garçonete, passa por assassinatos, confusões, ameaças e quase “roemos” as unhas para descobrir qual o final deste enredo que hipnotiza.

O interessante é que, na leitura, o autor volta no tempo para entender a história dos personagens, da onde vieram, quem são, por que estão ali. No capítulo XV, por exemplo, Vargas interrompe o relato da vida de Josh e sua loucura por uma garçonete para contar as trajetórias de Afonso e Roberto, que também são personagens chave no desfecho do romance.

Mariposas no Útero pode ser considerado um livro de certa forma confuso, pois o enredo é misturado de propósito pelo autor. Assim, o leitor deve redobrar a atenção ao ler. “Fora queimado o plano divino, descrente o destino e restou apenas o acaso. E o acaso é um velho bêbado de revolver empunhado mirando nos teus rins, exigindo que uma música inexistente seja dançada.”.

Mariposas no Útero filtra a imaginação, encanta, amedronta. Usa um acontecimento do cotidiano, que pode acontecer com qualquer pessoa e desvenda mistérios… um leitor que vai a um bar e esbarra em uma garçonete e, no fim, descobre que ela é peça fundamental na sua vida. O suspense prende a atenção e, como se fosse um filme, carrega no suspense “Nenhum pintor mostra se quadro inacabado. Se você entende o processo, o resultado perde valor”.

Tiago André Vargas é natural de Caxias do Sul, do distrito de Vila Cristina. É autor do livro Mariposas no Útero, um romance que traz humor, banalidade e, não raras vezes, o amor. Foi premiado no concurso nacional Associação Nacional dos Escritores, ANE – 50 Anos, com o conto A Violinista e contemplado no 4º Prêmio Literário Sérgio Farina com o conto E assim se fez o mar.

Para Tiago, o importante não é poder escrever, e sim, querer escrever. É quando querer escrever não é uma escolha, é uma necessidade. É como amar alguém. Assim, as significativas aprendizagens acontecem somente durante a caminhada e toda escolha é certeira se feita com o coração.


Para o autor: “Todos os livros que eu li, pessoas que eu conheci, eu acredito que todo e nenhum detalhe da minha vida me colocaria um dia em frente de uma página em branco dizendo: Seja agora quem tu és. Desde então, eu tento ser.”.

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