sábado, 26 de abril de 2014

Cio sem Cia



Cio sem Cia na encosta do mais duro lamurio
Villa-Lobos uiva minha janta vazia
Nas páginas amarelas não há taumaturgo
Que se venda na cura da algofobia
O mundo gira na cozinha
Solidão sem enfeite
Coça os dentes
Olha o leite
E o leite o que tem a dizer?
Quando a moeda toca o malabarista
No agouro de todo prazer
A certeza da póstera dor à vista
E você o que tem a dizer?
Quando há corte na excitação
O destino não duvida
A tua virilha quer bater
Sussurra um sim ou grita um não?
A noite não convida
Não precisa
O desejo não fala duas vezes
Chupa a língua
Morre a língua
No gemer
Faz viver
Se disser
Eu não sei
Falou três e a solidão averigua em vão

Tiago André Vargas
26.04.2014


Imagem de GRAFF Nicolas

domingo, 6 de abril de 2014

Sal na idade



Eu te roubei o título, você minha paz.
Saudade. Sal na idade. Tenha viço ao te provar e quem não devorar que tampouco venha lamber.
Partidário alpinista otimista opiniático: você não deveria estar aqui.
Mas tudo bem, so do i. No inglês encaixa melhor que eu também. Assemelha verossimilhança com só dói. Acabaram os cigarros. Sempre achei piegas a palavra piegas bem como escrever em inglês, disfarço minha culpa e peço desculpas à língua portuguesa que tão bem abraça e expurga meus anseios e desalentos no seio desta página inexistente, para tanto imponho um itálico paralítico na palavra do tio são, não obstante, também acho desnecessário escrever sobre cigarros, é redundância pura, fumar-escrever, redundância puta que amputa o vocábulo da tristeza.
Por isso, homem feliz, você não deveria estar aqui.
Cientistas céticos, enólogos artistas: mais perto.
Se a dor que te aflige é a solidão ofereço-te uma cadeira. Outras tristezas que sentem no chão na bem intencionada preparação de rigidez que a vida à bunda aconselha, impõem. Um legítimo cicerone carregando seu Cícero pela vida. Não é bonito isso? Se for, é.
Mais belo do que isso é o amor da sua vida na novelística trama da conveniência aberta vinte e quatro horas emergir como vizinha. Cuidado com a solidão, essa exímia roteirista. Colega da creche, da escola, da universidade para os menos afortunados. Cuidado. A teledramaturgia sempre justíssima com a meritocracia do amor não vai esquecer de você, basta não esquecer da oferenda à conveniência via de regra adornada pelo amar por pena na ode simbiótica da falha luta contra a miséria da singular existência. O falo e o farelo olham juntos escorados na janela a cidade escarnecer todos os argumentos que anoitecem o sentimento, pois eles são pragmáticos ao confutar o amor adjacente, alegando que é a carência comodista que cria o que se sente. Just 'cause you feel it Doesn't mean it's there. O falo, atrevido e sabido sempre olhando para cima ainda argumenta com rude sapiência que são tantas galáxias, são tantos planetas, que seria altaneiramente presunçoso crer-se agraciado com um amor intergaláctico na felizarda geografia do amor à vizinha, ou ainda o amor de berçário desinformado da mística paz salina que carrega o tempo sobre a idade três luas depois de sentir saudade do inventado.
Queria para caralho mais um cigarro, escrevi outra vez cigarro, o mesmo fiz com palavras inglesas, sou piegas e é rejuvenescedor como banho de mangueira derrubar alguns conceitos, todavia não é toda via que vai me levar para este almejado lugar algum onde pousa o sentimento ansiado antes da falta, impassível à maleabilidade que com tanta habilidade adaptamos o fadário a um roteiro esquematizado sobre nós mesmos. Quem mais seria? Prós e Contras é uma dupla de mau gosto que a dúvida não deixou se quer cantar uma música.
Precisamos escolher nosso nome (mire o cavaleiro da triste figura) e inventar nosso amor.
E como um planeta, dei toda esta volta por ser preciso.
Precisamos escolher nosso nome. Inventar nosso amor antes de conhecê-lo e depois refutá-lo com ares de cientista bêbado, ou ainda artista cético.
O meu está em uma das luas galileanas que dançam com Júpiter, único capaz de suportar este amor.
Uma lua com sal.
Lua com sal que eu, alguns cientistas e T. Yorke acreditamos ter vida.
Uma lua com sal.
Um sal de idade.
Sal na idade.
Até fazer saudade, de um amor terreno sem espaço tempo que mesmo sem o veredicto dos dedos não há legião ou solidão que me façam desacreditar estar aqui.


Tiago André Vargas

30.03.2014

Imagem de James Knowles

quarta-feira, 19 de março de 2014

Vide bula poesia



Escrita
Engodo no sussurro
O grito mal viça
Seguro casmurro
Corda-poesia
Cava-se um buraco
Torce-se uma pena
Morre a medicina
Inarmônica e sem brado
Retumba como urina
Na sobrevida
Doutro lado
Toca aludida
A sinfonia dos enforcados
Escrita em seio enluarado
Com círculos que rendem linhas
Por caracóis bêbados trocistas
Com suas marcas ínclitas
Vistas de Orion
Ou da latrina
Vide bula poesia
Para tudo que há remédio
E não há valia
Vida?

Vargas
19.03.2014


Imagem de Andrea

terça-feira, 4 de março de 2014

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Me passa



Sentados à mesa
Me passa o pão
Me passa a manteiga
Empurra o coração

Tens medo que este eu não queira comer
Ela não me passa
Fica ao meu lado
Rutilando seu meu seu ser
Regando com talante nossa graça
Dentro do sol de bule molhado

Vida tropeçada na manhã de domingo
Uma pantomima de castigo
Por ter vencido a janela aberta
Que ilumina o silêncio da paz estendida

Sobre a mesa
Beijo o sobrolho
Sempiterno sabor cereja
Dentro do amor fora do sonho

Para calendário cozer
E retina querer
Me passa
O que vai ser

Tiago André Vargas
16.02.2014




Imagem de Maria Mery


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Reprise


No dia mais feliz
Vivia-o
No dia mais triste
Vivia-o

Mesmo dia despercebê-lo
Mais tarde concebê-lo
Até no hoje
No hoje sentir e confundir

O dia mais feliz
Menti-o
O dia mais triste
Menti-o

~

O Tempo na sala
Me assiste
Em retrospectiva introspectiva
Chiste
Ranking de céu e terra
Balanço de vida
Fora de risco de poesia
Reprise
Troca o canal da minha memória
Cai numa mulher vendendo joias
O preço destas não é justo
Melhor assim

Esta oirada nostalgia
Só compra quem pode e não precisa

Tiago André Vargas
04.02.2014

domingo, 26 de janeiro de 2014

Ventila dor diz que sim



Marisa empunhava violão, dedos oleaginosos de verão, ativista em mister do ressequido imo. Sem amor é mais fácil compor, supôs, impôs, um dedilhado correu pelo vazio da sala enquanto girava sua face, esperançosa que a música pudesse trazer algo, canto de sereia em cordas de aço, ventilador ligado como a base de um new age insueto.
Sua voz aguda. Um livro do Abreu destacado, grifo amarelo sobre astrologia e sexo despudorado nas luzes que cortam a noite em fatias. Marisa queria compor uma música sobre o mar. Sem amar é fácil falar do mar. Nos dias de menor sentir maior filigranar.
Sentiu-se gárrula.
Diapasão no gritar mar. Súplica equórea. Estende-se vogais. Entende-se em linhas gerais do não pensar.
Do compor um torpor dos dedos calor, Marisa era a nuca que se despedia do silêncio. Jogava pelas paredes claras os sons como se fossem cartas, aleatória em leve crescer de angústia e sonoridade, prelúdio da dor mais intensa antes do cessar.
Saiu da sala.
Foi estender roupas.
Por fim nada perpetuou: nenhuma letra rabiscada, nenhuma música memorada. O que não pode ser lembrado, alguma vez existiu?
O ventilador por ela enamorou cantando única nota sabida. Reverdeceu-a por alguns instantes, depois se manteve sozinho na sala negando com a cabeça, incrédulo por estar só.
Máquina alguma podia ventilar aquela dor.
Voar para compor Marisa era coisa de tempestade abraçada em calmaria, sem tomada, tombada nos braços de um amor que nada cria.
Vida estendida no sol do fim do dia. Fugaz compor a dor.
Ventilador diz que não.
Ventila dor diz que sim.

Tiago André Vargas
26.01.2014

Imagem de Guillermo.

Featured Post

Refri de laranja para quem tem sede de sonhos e outras epifanias que cabem numa fritadeira

“Algumas pessoas só conseguem dormir com algum peso sobre o corpo, eu era assim”. Foi o que eu escutei enquanto adormecia na rodoviá...