terça-feira, 14 de outubro de 2014

Deusamordeuamor



Beijo pêndulo a fender
Vista ulterior
Testa a testa
Deus amor

Perto o bastante para unificar os olhos

Piso preciso e o rosário de rosas penduricalho
Um sentido no dedo toda lágrima é benta
Silêncio levito nos sinos do assoalho
Entremear abrigo nos teus pés areia

Rezo contigo
Enfim ouço
Sem fim sinto
Será assim lado a lado
O terço do teu umbigo na oração do meu imo até o vazio fugir perdoado


Tiago André Vargas

14.10.2014



sábado, 4 de outubro de 2014

4º Prêmio Literário Sérgio Farina


Poderia escrever o mesmo blá, blé, blí = emotivo/gratidão. Poderia mandar um beijo para todo mundo que está me assistindo. Mas no baile de bhaskara eu gosto de ir sem máscara vestido de esfinge/analógica:

Digamos que a escrita seja um monstro que me excita sem autorização. Não que eu goste, ou não. Digamos que aconteça enquanto eu durmo. Digamos que eu ame esse monstro com certo repúdio, todavia, é o que lojas René não dizia: Amo logo fodo. Digamos que eu engravide o monstro. Digamos que este parisse uma centopeia. Digamos que eu embale a centopeia com meus escassos braços.
O tipo de ternura que eu sinto é a mesma ao ver pela primeira vez o livro de um prêmio literário que faço parte.
Fazer parte é cretinice. Cretinice é uma palavra bonita. Grega? Descartes era francês, mas seria mais digno se fosse grego.
"Descartes" tudo isso.


Estou feliz. E escrevi em vermelho por estar correto. Escrevi em negro para disfarçar. Grato e emotivo. Hoje é um dia assim.

4º Prêmio Literário Sergio Farina.
Edição linda.
Centopeia colorida é colírio pra vida, duas noites frias.








04.10.2014
Tiago André Vargas

domingo, 31 de agosto de 2014

Luzidia




Poderia viver na beligerância
Poderia morrer na eiva da vida
Aceitando o fuzilamento no muro da infância
Da mãe, o corpo caíra sobre as flores preferidas

E ainda assim
Nada saberia
E bem assim
Nada seria

Teus olhos de lamparina
Só me mostram quão fundo
É o sonho negro da rapina
Bater de asas, fugir fecundo

Calado e mudo e mudo e mundo
Luzidia
Tiago André Vargas

31.08.2014



Pintura de Manabu Mabe

domingo, 17 de agosto de 2014

Doce a salgado



Na corte não há corte.
O palhaço coleciona dentes, a criança mata insetos. Ambos o fazem por resposta, a porta trancada separa o medo da pergunta.
Eu prefiro doce a salgado, foi o que ela disse, no primeiro encontro.
Mas minha pele tem gosto de incerteza, especialmente na chuva de setembro.
As palmas nos ombros, um suspiro, nova voz serpenteia a gruta do meu caminho, até o lago do meu abrigo, um poço sem carinho, uma volta sem destino.
No aeroporto eu fiquei sozinha, em frente a um homem de relógio niquelado, o plano de fundo na corrida dos ponteiros era azul. De um azul muito vivo, fugitivo dos olhos terrenos. Anil. Eu queria ser sua amiga, ou roubá-lo o relógio. Aquele relógio me faria ser rainha, teria perenemente o semblante de quem está com sorte no baralho, mas ele, bem, ele parecia ter velado alguém que amava.
Sua dor combinaria melhor com o pulso nu.
Teria ele matado algum inseto como resposta?
Teria ele treinado para provocar sorrisos como se isso fosse belo, ou ainda, digno?
Ele me olhou, entrementes.
Eu sorri.
Meu sorriso bateu no seu rosto e voltou, impassível, como luz no espelho. Mas. No retorno, eu, tampouco, estava lá.
Eu gostava de ser acariciada pelas suas mãos, sentir a pulseira me tocar com gelidez repulsiva.
Eu ainda prefiro doce a salgado.

Nós passamos, o tempo fica.
Ele disse.

Na corte não há sorte.

Ele se calou com o coração caloso.
Precisou voar.
Alguém disse.

Tiago André Vargas

17.08.2014


Pintura de Georg Baselitz

domingo, 3 de agosto de 2014

Sós no contravento




Sair de uma tempestade
De areia
Não é fácil quando se é feito
De areia

Faz-se necessária
Uma mão de vento
Mádida para enrijecer
A lufada do querer rebento

Despida do despeito
Desvestida do intento
Orvalhado sentimento
A areia vira nó

Atrela dois sós
No mesmo contravento


03.08.2014

Tiago André Vargas


Pintura de Janine.

domingo, 13 de julho de 2014

Fiquei na idade



Passei da idade
Da passividade
Passo de vida
Passo da vinda

Se ainda fosse menina
Esperaria o tempo vincado
Correr pelas esquinas
Do meu nariz adulado

Demasiados
Elogios postiços baldados no caminho
Inalados
Céu preso no pulmão azulado

Matiz mulher me colori
Fiquei na idade de partir

Tiago André Vargas

13/07/2014


Pintura de Anastasiya Markovich

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Átomo



À toa
Tomo
Átomos

De tempo

Cortados
No ranger
Dos zigomas
Com seu vezo
De socos fragosos
E beijos ternos

Rasgo
O tenro
Terno
Por ser eterno

Como o átomo
Na boca
De um olho maior
Tampouco
Me

Tiago André Vargas
26.06.2014



Pintura de Francis Bacon

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