domingo, 16 de agosto de 2015

La bailarina



Este soneto é uma tentativa de escrever algo em espanhol, ou ainda, uma necessidade de escrever um coerente sentimento de momento indecifrável, cuja o caminho, somente a beleza de uma língua que eu desconheço me permitiu trilhar. Caso algo esteja errado, agradeço a correção de vocês.



La bailarina


Es verdad
Su madre te dio un vestido
Pero no fue una afección arterial
Lo que te permitiste soñar
Fuera de su cuerpo físico uña taza de cristal quiere hablar

Te convertiste en una activista
De la vida
En el peor callo de su mejor pie
Yo quiero besar

Cada día
En tu mundo
Una vuelta
Que no se inicia
Tampoco termina

Tiago André Vargas

16.08.2015

Pintura de Edgar Degas.

domingo, 9 de agosto de 2015

O fator Deus - José Saramago



Em um mundo onde é mais fácil obter a notícia de uma nova tragédia do que um novo pedaço de pão parece incoerente relembrar uma barbárie, seja qual for, até as mais terríveis são apenas um ponto que resplandece um pouco mais forte dentro da constelação das desgraças humanas, que só são desgraças por justamente serem infligidas pelo próprio homem. Dizer que o homem é o lobo do homem é injusto, com o lobo, animal que só mata para alimentar a si ou aos seus.


Já tinha lido As intermitências da Morte, de Saramago. Agora iniciei A caverna. Andei a pesquisar algumas coisas do português, descobri empatia para com ele, por motivos que se fossem evidenciados pareceriam oportunos da minha parte para igualar-me ao escritor, logo, não os cito. Numa dessas pesquisas me deparei com um texto que ele escreveu sobre o onze de setembro, lido no site da Folha de São Paulo. Abaixo o transcrevo:



José Saramago: O fator Deus


Algures na Índia. Uma fila de peças de artilharia em posição. Atado à boca de cada uma delas há um homem. No primeiro plano da fotografia um oficial britânico ergue a espada e vai dar ordem de fogo. Não dispomos de imagens do efeito dos disparos, mas até a mais obtusa das imaginações poderá "ver" cabeças e troncos dispersos pelo campo de tiro, restos sanguinolentos, vísceras, membros amputados. Os homens eram rebeldes.

Algures em Angola. Dois soldados portugueses levantam pelos braços um negro que talvez não esteja morto, outro soldado empunha um machete e prepara-se para lhe separar a cabeça do corpo. Esta é a primeira fotografia. Na segunda, desta vez há uma segunda fotografia, a cabeça já foi cortada, está espetada num pau, e os soldados riem. O negro era um guerrilheiro. Algures em Israel. Enquanto alguns soldados israelitas imobilizam um palestino, outro militar parte-lhe à martelada os ossos da mão direita. O palestino tinha atirado pedras. Estados Unidos da América do Norte, cidade de Nova York. Dois aviões comerciais norte-americanos, sequestrados por terroristas relacionados com o integrismo islâmico, lançam-se contra as torres do World Trade Center e deitam-nas abaixo.

Pelo mesmo processo um terceiro avião causa danos enormes no edifício do Pentágono, sede do poder bélico dos States. Os mortos, soterrados nos escombros, reduzidos a migalhas, volatilizados, contam-se por milhares.

As fotografias da Índia, de Angola e de Israel atiram-nos com o horror à cara, as vítimas são-nos mostradas no próprio instante da tortura, da agônica expectativa, da morte ignóbil. Em Nova York tudo pareceu irreal ao princípio, episódio repetido e sem novidade de mais uma catástrofe cinematográfica, realmente empolgante pelo grau de ilusão conseguido pelo engenheiro de efeitos especiais, mas limpo de estertores, de jorros de sangue, de carnes esmagadas, de ossos triturados, de merda. O horror, agachado como um animal imundo, esperou que saíssemos da estupefação para nos saltar à garganta. O horror disse pela primeira vez "aqui estou" quando aquelas pessoas saltaram para o vazio como se tivessem acabado de escolher uma morte que fosse sua. Agora o horror aparecerá a cada instante ao remover-se uma pedra, um pedaço de parede, uma chapa de alumínio retorcida, e será uma cabeça irreconhecível, um braço, uma perna, um abdômen desfeito, um tórax espalmado. Mas até mesmo isto é repetitivo e monótono, de certo modo já conhecido pelas imagens que nos chegaram daquele Ruanda-de-um-milhão-de-mortos, daquele Vietnã cozido a napalme, daquelas execuções em estádios cheios de gente, daqueles linchamentos e espancamentos daqueles soldados iraquianos sepultados vivos debaixo de toneladas de areia, daquelas bombas atômicas que arrasaram e calcinaram Hiroshima e Nagasaki, daqueles crematórios nazistas a vomitar cinzas, daqueles caminhões a despejar cadáveres como se de lixo se tratasse. De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta aos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em nome de Deus. Já foi dito que as religiões, todas elas, sem exceção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, que, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana. Ao menos em sinal de respeito pela vida, deveríamos ter a coragem de proclamar em todas as circunstâncias esta verdade evidente e demonstrável, mas a maioria dos crentes de qualquer religião não só fingem ignorá-lo, como se levantam iracundos e intolerantes contra aqueles para quem Deus não é mais que um nome, nada mais que um nome, o nome que, por medo de morrer, lhe pusemos um dia e que viria a travar-nos o passo para uma humanização real. Em troca prometeram-nos paraísos e ameaçaram-nos com infernos, tão falsos uns como outros, insultos descarados a uma inteligência e a um sentido comum que tanto trabalho nos deram a criar. Disse Nietzsche que tudo seria permitido se Deus não existisse, e eu respondo que precisamente por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o pior, principalmente o mais horrendo e cruel. Durante séculos a Inquisição foi, ela também, como hoje os talebanes, uma organização terrorista que se dedicou a interpretar perversamente textos sagrados que deveriam merecer o respeito de quem neles dizia crer, um monstruoso conúbio pactuado entre a religião e o Estado contra a liberdade de consciência e contra o mais humano dos direitos: o direito a dizer não, o direito à heresia, o direito a escolher outra coisa, que isso só a palavra heresia significa.

E, contudo, Deus está inocente. Inocente como algo que não existe, que não existiu nem existirá nunca, inocente de haver criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações do seu poder e da sua glória, enquanto os mortos se vão acumulando, estes das torres gêmeas de Nova York, e todos os outros que, em nome de um Deus tornado assassino pela vontade e pela ação dos homens, cobriram e teimam em cobrir de terror e sangue as páginas da história. Os deuses, acho eu, só existem no cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou, mas o "fator Deus", esse, está presente na vida como se efetivamente fosse o dono e o senhor dela. Não é um deus, mas o "fator Deus" o que se exibe nas notas de dólar e se mostra nos cartazes que pedem para a América (a dos Estados Unidos, não a outra...) a bênção divina. E foi o "fator Deus" em que o deus islâmico se transformou, que atirou contra as torres do World Trade Center os aviões da revolta contra os desprezos e da vingança contra as humilhações. Dir-se-á que um deus andou a semear ventos e que outro deus responde agora com tempestades. É possível, é mesmo certo. Mas não foram eles, pobres deuses sem culpa, foi o "fator Deus", esse que é terrivelmente igual em todos os seres humanos onde quer que estejam e seja qual for a religião que professem, esse que tem intoxicado o pensamento e aberto as portas às intolerâncias mais sórdidas, esse que não respeita senão aquilo em que manda crer, esse que depois de presumir ter feito da besta um homem acabou por fazer do homem uma besta.

Ao leitor crente (de qualquer crença...) que tenha conseguido suportar a repugnância que estas palavras provavelmente lhe inspiraram, não peço que se passe ao ateísmo de quem as escreveu. Simplesmente lhe rogo que compreenda, pelo sentimento de não poder ser pela razão, que, se há Deus, há só um Deus, e que, na sua relação com ele, o que menos importa é o nome que lhe ensinaram a dar. E que desconfie do "fator Deus". Não faltam ao espírito humano inimigos, mas esse é um dos mais pertinazes e corrosivos. Como ficou demonstrado e desgraçadamente continuará a demonstrar-se.




domingo, 2 de agosto de 2015

Apostasia ou Os ingleses cantam ou Em nome da mãe



Minha mãe e Kierkegaard, aos seus modos, pensaram o que era ser um bom, ou apenas, um cristão. Ambos sentiram que algo estava errado: o rapaz, de nome difícil de escrever, com a dialética e minha mãe através dos joelhos. Minha mãe não tem bons joelhos. Minha mãe dizia que é preciso se ajoelhar, mas sentia que não o era, mas eu precisava me ajoelhar, pois preciso era. Eu ainda não li Kierkegaard. Eu ainda não li minha mãe, apenas a exegese, que é mãe. Minha mãe diz que é preciso se ajoelhar. Sua pessoa além mar-mãe questiona. O comum dessas personas é a dor no joelho.
Algum inglês irá cantar dentro do meu ouvido: você é o único deus que eu preciso.
Eu fiz a catequese e vi meu melhor amigo escutar, de cabeça baixa, outro menino blasfemar qualquer coisa sobre Jesus, pregos, homossexualismo, Madalena e putaria. Na volta eu pegava carona com meu melhor amigo em uma Kombi, ele tinha vários cães com pulgas, eu levava as pulgas comigo, eu sempre me coçava depois da catequese, minha mãe podia pensar que eu era um anátema, que eu tinha o capeta embaixo do couro, mas minha mãe não podia falar que pensava tal coisa, era como ficar de pé quando todos se ajoelham.
Se os ingleses não fossem cercados pelo mar, fariam menos músicas. Se o mar não transladasse da água até qualquer coisa que nos encerra não haveria música. Dentro da igreja qualquer som fica mais bonito.

Decorei várias orações, mas foram poucos os olhos que, mirando-os, enterrei minhas armas e confessei amor. Os ingleses não sabem amar, por isso cantam. Minha mãe nunca foi pontual. Eu menos. Haverá quanto tempo para dizer que te amo? Time is on my side. Oremos.

Tiago André Vargas

02.08.2015

Cape cod evening, 1939, Edward Hopper.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Nunca te amei tanto - Bertolt Brecht



Nunca te amei tanto, ma soeur,
Como quando de ti parti naquele pôr-de-sol.
O bosque engoliu-me, o bosque azul, ma soeur,
Sobre que já pousavam as estrelas pálidas a oeste.

Não me ri nem um pouco, nada, ma soeur,
Eu que a brincar ia ao encontro dum destino escuro —
Enquanto os rostos já atrás de mim
Devagar empalideciam no anoitecer do bosque azul.
Tudo era belo naquele anoitecer único, ma soeur,
Nunca mais depois e nunca antes assim —
Verdade é: só me ficaram as grandes aves
Que ao anoitecer têm fome no céu escuro.

Bertold Brecht, em 'Do Pobre B.B.' 




quarta-feira, 15 de julho de 2015

Furor



Quebrei-me
As unhas
Coloquei-as
No copo
Quebrei
O copo
Coloquei-o
No vaso sem flor
Quebrei
O vaso sem flor
E comi de punhados
Cerrados
Os pedaços maiores
Os menores
Lambi
A flor
Prendi
Os espinhos no meu peito
Nu
Para sempre multifário
Abri meus braços
Dei-me de presente para
Você dilacerar aos quatro grandes ventos
Fiquei
Aos punhados
Feliz
Debaixo das tuas garras
Agora mansas
Uma a uma
Violáceas unhas
Mais firmes que o amor marfim

A menina desenhou
Uma menina
Na janela embaçada
Vamos aos pares
Vamos aos ares


15.07.2015

Tiago André Vargas


Esthia. Pintura de Antônio Saura, 1958.


terça-feira, 7 de julho de 2015

Recordação - Emily Brontë



Poema agudo de Emily Brontë, ao se lembrar da mãe e das duas irmãs mais velhas, então falecidas. Pela menção de "quinze dezembros", estima-se o tempo aproximado da triste recordação. Me agrada em especial a última estrofe do poema, a força do luto convertida na ação de abraçar o seu vazio até o ponto de não poder mais perceber o mundo incompleto.


Recordação


Gélido na terra – e a neve profunda empilhada alta acima de ti
Tão, tão distante, frio no lúgubre túmulo!
Será que esqueci, meu único amor, de amar-te,
Separado agora pelo aceno dilacerante do Tempo?…

Agora, quando só, meus pensamentos não mais pairarão
Sobre as montanhas, dessa costa ao norte,
Descansando suas asas onde as samambaias rodeiam
Teu nobre coração para sempre, cada vez mais?

Gélido na terra – e quinze dezembros selvagens,
Daquelas colinas marrons, se derreteram em primaveras:
Fiel mesmo é o espírito que lembra
Após tantos anos de turbulência e sofrimento!

Amor doce de juventude, perdoa-me se eu esquecer de ti,
Enquanto a maré do mundo está carregando-me junto:
Severos desejos e outras esperanças me envolvem,
Esperanças que obscurecem, mas não podem fazer-te mal!

Nenhuma luz tem iluminado meu céu;
Nenhuma manhã tem brilhado para mim:
Todo o bem da minha vida veio da vida que me deste,
Todo o bem da minha vida está no túmulo contigo.

Mas quando os dias de sonhos dourados desapareceram,
E até mesmo o Desespero era incapaz de destruir,
Então aprendi como a existência pode ser estimada,
Fortalecida, alimentada sem ajuda da alegria.

Então cessei minhas lágrimas de paixão inútil
Curei minha alma jovem de ansiar pela tua;
Severamente neguei-lhe o desejo ardente de correr
Para aquele túmulo que já é mais do que meu.

E, ainda assim, não ouso me deixar levar
Não ouso me entregar a dor extática da memória;
Após uma vez beber da angústia mais divina,
Como eu poderia buscar o mundo vazio de novo?




Emily Brontë

Aproveito para indicar este blog com poemas e textos das irmãs Brontë: Poesias Bronteanas.


sábado, 4 de julho de 2015

Je suis hippopotame



Do livro Quando um crocodilo engole o sol, de Peter Godwing:

"De todas as teorias que propõem explicar o comportamento antissocial do hipopótamo, minha favorita é a oferecida pelos san, os homens do mato com quem recentemente passei tanto tempo pela National Geographic. Eles acreditam que o hipopótamo foi o último animal a ser criado e que foi feito de partes que sobraram da construção de outras feras. Quando o hipopótamo viu o seu reflexo na água, ele ficou tão envergonhado de sua feiura que suplicou ao criador, Kaggan, que lhe permitisse viver submerso, longe dos olhos dos outros. Kaggan, porém, recusou seu pedido, preocupado com a possibilidade de o hipopótamo comer todos os peixes com sua enorme boca. O hipopótamo prometeu que não comeria qualquer coisa viva na água, e Kaggan cedeu. Foi fechado um acordo, segundo o qual o hipopótamo deve retornar à terra, toda noite, para comer e cagar, a fim de que os outros animais possam examinar suas fezes e se certificar de que não há espinhas de peixe nelas. A humilhação periódica da inspeção pública de suas fezes poderia muito bem justificar o caráter irascível do hipopótamo."
04.07.2015





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Refri de laranja para quem tem sede de sonhos e outras epifanias que cabem numa fritadeira

“Algumas pessoas só conseguem dormir com algum peso sobre o corpo, eu era assim”. Foi o que eu escutei enquanto adormecia na rodoviá...