domingo, 6 de março de 2016

Papai via longe, muito longe – Louis Ferdinand Céline



Meu pai, com medo de que eu desse para ladrão, berrava como um trombone. Só porque, uma tarde, eu tinha comido todo o açúcar do açucareiro junto com Tom. Nunca se esqueceram daquilo. Ainda por cima, eu tinha outro defeito, andava sempre de bunda suja. Não me limpava direito, não tinha tempo. A minha desculpa é que a gente estava sempre com pressa… Também me lavava sempre mal, pois tinha medo dos tapas que me esperavam se eu me atrasasse e que eu queria evitar… Por isso corria… Deixava a porta do banheiro sempre aberta para perceber se havia alguém por perto… Fazia cocô como um passarinho, entre duas tempestades…
Subia aos pulos para o outro andar, não me achavam mais… Ficava com merda no cu durante semanas. Eu reparava no cheiro, não chegava muito perto das pessoas.
“É sujo como um porco no chiqueiro! Não tem respeito próprio! Nunca vai conseguir ganhar a vida! Todos os patrões que tiver vão despedi-lo logo”… Para ele, o meu futuro era uma bosta…
“Que fedor!… Não é que vamos acabar tendo que sustentá-lo!…”
Papai via longe, muito longe. Ainda repetia, insistindo em latim, “Sana… corpore sano”… Minha mãe não sabia o que responder.

Morte a Crédito, Louis Ferdinand Céline, 1951.

06.03.2016

Textos Não Tetos

Louis Ferdinand Céline

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Som e fúria



A única beleza
Tombada no cântaro
Da literatura
É o grito
Rasgado
No incontestável
Silêncio

Tiago André Vargas
17.02.2016

Pintura de John Martin

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O sol pichado no rio que parece ser mar dentro de nós



No meio do fio da madrugada uma pichação em espanhol acorda a alma latina, sonâmbula, sentada na latrina. Dá vontade de gritar com eloquência uma língua desconhecida, dá vontade de chupar com magnificência uma língua desconhecida. Depois passa. Eu passei; o muro também. Do mesmo jeito que passei por Montevidéu e tatuei o cavalo de Artigas na minha coxa. Esquerda. A tatuadora a fez enquanto olhava o Río de La Plata. Estávamos em um prédio alto, que olhava para o Río de La Plata. Já as pessoas que estavam no prédio alto olhavam para as pessoas que estavam na Rambla, e as pessoas que estavam na Rambla olhavam para o Río de La Plata acreditando que olhavam para o mar.
O Río de La Plata olhava para dentro de si. Ele via o mar.
Eu me lembro de Galeano dizer que Montevidéu é uma cidade que ainda se pode respirar, e que respirar é importante. Talvez previsse a sua morte, a complicação com o câncer de pulmão. Não é raro saber o que nos matará. O incomum, talvez, seja afastar-se pela mão da sabedoria, e não da dor. Quem parava, e olhava para o rio pensando que olhava para o mar, ou ainda, quem olhava para o rio sabendo que olhava para o rio, na verdade do fundo da água morna da cachola da existência: olhava para si. É um efeito lindo, profundo, tão metafísico quanto cortar um pimentão amarelo e nascer o dedilhado de um violão triste: olhar o horizonte. A linha do mar e do céu. A linha da pichação na parede. Uma cidade vizinha do mar, ou de um rio que parece ser mar, é um convite à reflexão, bem como os gritos da mais imparcial das imprensas (validados pela cólera da transgressão) grudados nos muros de quem não tem interesse, ou dinheiro, em novas tintas para suprimi-los. Que gritem, enquanto pensarem ter voz. Que façam ondas, enquanto pensarem ser mar.
Os poros engoliam o sol de semblante sereno, com seus oito raios agudos e oito ondulantes. Um vento forte batia na água e fazia carinho nos cabelos. E se é para ter uma alma, que ela seja assim.


Tiago André Vargas

22.01.2016


Montevidéu, janeiro de 2016.


domingo, 27 de dezembro de 2015

A busca pelo olhar presente



Desde que iniciei a transcrever uma passagem para cada livro lido, este foi o mais difícil. Édipo Rei, de Sófocles, na qualidade dramatúrgica das clássicas tragédias gregas, principia com falas enigmáticas de intensidade suprimida, conduzindo assim, lenta e sabiamente, o drama. Ao final a carne se abre, junto com a intensidade das falas e ações. É teatro, vivo, de um sangue humano que após dois milênios continua com o mesmo gosto.
Vamos à passagem:

Creonte: Direi, pois, o que me disse o deus. Ordena-nos Apolo que apaguemos a mancha que alastrou na nossa terra, que a façamos desaparecer, em lugar de a deixarmos aumentar; devemos recear que se torne inexpiável.
Édipo: E de que espécie é esse mal? Que expiação?…
Creonte: Expulsando um homem dos nossos territórios ou vingando o crime com o crime, porque é um crime que está arruinando a cidade.
Édipo: Contra que homem foi cometido o crime de que fala o oráculo?
Creonte: Senhor, foi contra Laio, outrora rei da nossa terra, antes de seres tu o chefe da cidade.
Édipo: Já ouvi falar disso; eu nunca o vi.
Creonte: O oráculo ordena claramente que sejam castigados os que assassinaram esse homem.
Édipo: Em que terra estão? Como se há-de encontrar qualquer vestígio desse crime tão antigo?
Creonte: Diz o oráculo que há vestígios na cidade. Só se encontra o que se busca; o que nos é indiferente, de nós foge.

Sobre a passagem: nada de dramaticidade. Apenas uma fala para salientar como é genioso ‘buscar’. E, caso aquilo que se busque não seja passível de ação (seja por limitação, ou por reflexão) é imprescindível, mesmo dentro da inanição, reconhecer o que gostaríamos de alcançar. Pois, se a ‘sorte’ nos visitar, só a reconheceremos como ‘sorte’ se já estivermos imbuídos com o gosto deste encontro. Sem isso, não a perceberíamos como tal. Ainda (e principalmente): após o encontro, a busca continua. A realidade nunca é estável, permanecer imutável é dar asas para a indiferença, que, foge. Muitas vezes levando consigo o que, após perdermos, não nos era dispensável. A única maneira de vencer a indiferença natural que decorre sobre o ‘achado’ é recriando o seu significado, ou então, a maneira de vê-lo (recriando a si próprio). Édipo vai dizer: “Que me importa ver, se nada me era agradável à vista?”. Nesse ponto do drama, Édipo era incapaz de atribuir qualquer significado, nada do que poderia ver conversaria com a sua existência. Para isso, mudou sua maneira de enxergar: Arrancou os próprios olhos.


27.12.2015
Tiago André Vargas

Louis Bouwmeester como Édipo, na produção alemã de "Oedipus the King"  - 1896


quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

O isqueiro está na terceira gaveta



Eu me lembro da luz
Flâmula
Da grandeza da miúda vela no teu pequeno apartamento
Da fumaça que morria nos teus cabelos
Devagar
Como um navio fantasma
Engolfando a proa no peso da noite

Eu me lembro
Do meu nariz
Grande e atarantado
Procurando tua raiz
Teu fumo e teu sumo
Chafurdado na nuca telúrica
O arpéu da narina preso ao brio
De um brinco que você não tirou
Naufragando
O que tua boca não separou
De mim

Eu não me lembro
Do poema
Que inscrevi
Nas tuas costas
Mas me lembro
Da tua aflição
Por não conseguir lê-lo
E me lembro do ferrão da abelha
Que fecundou o teu lábio superior
Enquanto você falava que estávamos em dezembro
Enquanto você falava que seus braços eram flexíveis
Enquanto você sonhava sobre mim
Como se estendesse um cobertor sobre uma cama bagunçada
Que não precisa ajeitar
Só precisa ser quente

23.12.2015
Tiago André Vargas

Fotografia de Tiago André Vargas


quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Au, au e estamos conversados – Marcelo Mirisola



Passagem do conto “Qual o Mal de a Mina?”, do livro Fátima Fez os Pés para Mostrar na Choperia (Editora Estação Liberdade, 1998), do autor Marcelo Mirisola:

(...)
Hoje é a palavra pela palavra. A solidão da coisa feita. Ou a indisposição de frequentar o casamento dos amigos. Eu lhe digo, embora não tenha nada a ver com esta viadagem de dizer “porque eu sou um artista e coisa e tal”, eu lhe digo a mesma coisa que eu disse para a armeniazinha do Bom Retiro, sabe, meu amor, quem faz arte como eu serve a morte; morre várias vezes ao invés de viver uma vidinha de armarinhos; daí vem a demagogia e a comparação que eu sempre faço nesses casos: “que nem cachorro”, sabe? Sem frescuras do tipo “Bom dia, como está?” Cheirando logo o cu da rapaziada. Se Michelangelo, para falar de um cara que todo mundo conhece, vivesse hoje e pudesse escolher, cheirava o cu da rapaziada e vice-versa. Au, au e estamos conversados. Depois ele iria cuidar de Davi e de Moisés. Que, bem verdade, são exemplos latentes, primeiro Moisés e depois Davi, da solidão da coisa feita.
(...)
Agora é para você, meu amor.
Sou capaz de matar por uma guimba manchada de batom. De ser um santo, quer dizer, o que eu tenho vontade mesmo é de ser garçom. De verdade mesmo eu tenho vontade é de cobri-la na porrada, de quebrar a sua cara e falar algumas coisas que você não vai compreender. Também dar uma volta de pedalinho no Lago Lundoya, minha branquela, e depois comprar uma maçã do amor para nós dois e mais um sorvete de flocos para mim. Pegar na sua mão e dizer que amo você.

17.12.2015


Fotografia de Jonatan Mattsson.

domingo, 6 de dezembro de 2015

E nós estamos dançando - Chuck Palahniuk



Passagem do livro Sobrevivente (Survivor - 1999), Chuck Palahniuk:

(...)
O cabelo dela parece que foi colhido num campo e empilhado na cabeça dela para secar.
"Ele chegou a te contar do cruzeiro em que ele me levou?"
Não.
"Foi totalmente ilegal."
Ela olha da Catacumba número 678 para o teto, de onde vem a música, dos pequenos alto-falantes ao lado das nuvens e dos anjos pintados.
"Primeiro, ele me fez ter aulas de dança com ele. Aprendemos todas as danças de salão, o chá-chá-chá, o fox-trote. A rumba, o swing. A valsa. A valsa foi fácil."
Os anjos tocam sua música acima de nós durante um minuto, dizendo algo a ela, e Fertility Hollis ouve.
"Me dá", ela diz, virando-se para mim. Então ela pega as minhas flores e as dela e as coloca encostadas na parede. Ela pergunta: "Você sabe dançar valsa, certo?".
Errado.
"Não acredito que você conheceu o Trevor e não sabe dançar valsa", ela diz e balança a cabeça.
Na cabeça dela ela tem a imagem do Trevor e eu dançando juntos. Rindo juntos. Fazendo sexo anal. Estou com essa desvantagem, isso e a ideia de que matei o irmão dela.
Ela diz: "Abra os braços".
Eu abro.
Ela fica bem diante de mim e coloca uma mão atrás do meu pescoço. Sua outra mão segura a minha mão e ela estica o braço, à nossa lateral. Ela fala: "Pegue sua outra mão e coloque em cima do meu sutiã". Eu obedeço.
"Nas minhas costas!", ela diz, e se desvencilha de mim. "Coloque a sua mão sobre o meu sutiã onde ele cruza a minha espinha dorsal."
Eu obedeço.
Para nossos pés, ela me mostra como dar um passo adiante com meu pé esquerdo, depois com o direito, e depois colocar os dois pés juntos enquanto ela faz o mesmo na direção contrária.
"Esse é o chamado Box Step", ela ensina. "Agora preste atenção na música."
Ela conta: "Um, dois, três".
A música vai. Um. Dois. Três.
Contamos várias vezes, dando um passo a cada vez que contamos, e estamos dançando.
As flores em todas as catacumbas por todas as paredes se curvam sobre nós. O mármore corre liso sob nossos pés. Estamos dançando. A luz entra pelos vitrais. As estátuas estão esculpidas em seus nichos. A música sai fraca dos alto-falantes e ecoa pelas pedras até que começa a ir e vir em ventos e correntes, em notas e acordes ao nosso redor. E nós estamos dançando.
(...)

06.12.2015


Fotografia de Markus Probst.


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