domingo, 17 de março de 2019

Uma sala de cinema vazia no fim da tarde






Era como pregar uma verdade com um martelo de carne
Lutar contra a gravidade para se tornar fabuloso
Olhar no espelho para ampliar a consciência do seu charme
Forjar um olhar bélico como resguardo do outono

De chorar lendo um livro sozinho
Com os pés da emoção na beira de um soluço
Olhar para um gato na busca de compreensão
E não tê-la

Ser alguém capaz de respeitar um despertador
De confundir janelas e molduras e olhos e dedos
Ir ao cinema sozinho e trocar um olhar de cinco segundos
Com alguém que não encontra o seu lugar

Voltar pensando que a vida é um filme 5D
Com um orçamento altíssimo
Uma produção porca
E um péssimo roteiro escrito por crianças malcriadas

Mas você é um bom ator
Você tem cinco corações
Você se olha no espelho e estremece
Você ensaia suas falas como orações comovidas
Você examina os seus gestos analiticamente
Você quer estar pronto
Você estará pronto
Quando a oportunidade de improvisar a vida
Se apresentar

Como um trem que surge ao longe
Um trem com o apito quebrado
De movimento implacável

Você com seu amor e o momento
Incontestável
“Olhem para mim, agora”

Tiago André Vargas
17.03.2019



domingo, 24 de fevereiro de 2019

Recender





Não fomos de muitas palavras
Mas seus olhos criaram uma sentença completa
Pelas narinas crescidas o pulo da lua o passo tímido de um
Quadrúpede que amava a fase minguante
Descrevendo meu cheiro que não estava mais lá
Sabão em pó de estrela
Fuligem industrial no vento sem par
Papel reciclado com tinta de palavra
Cruzadas
Pelas guerras de amor e as mortes justificadas pela crença
Casco de cabra
O silêncio da fé e o carinho na ausência da razão
Fogueira de corpos e nosso coração de pedra e madeira
O desconhecido passou por estas terras
Engravidou a muitos
Um pouco antes do deserto arborescente
Da cultura
Mas meu cheiro não era de muitas palavras
Mas seu olfato não era de muitos afetos
Ainda assim
Escolhiam-se sempre e dançavam no vazio

A cama vazia é um velocímetro quebrado
A distância dos meus dedos é um piano apodrecendo na rodoviária
O teu cabelo as teclas negras
Aquela musiqueta do Debussy que abria caminho da raiz à ponta
Ecoa
Na minha cabeça
O vagão se distancia
Eu cruzo minhas botas com certo estilo
Presto atenção nesse certo estilo
Estas botas são tudo que tenho para lutar com a solidão
O couro lustro revela a serventia que surge na morte das coisas
Meu corpo e meus sonhos poderiam abraçar o pé de alguém
Você na varanda com uma faca na mão
Uma laranja na outra
O fiapo entre os incisivos
O silêncio incisivo
Uma atmosfera cortante
Mas minha cabeça é de muitas palavras
E ela conversa sem parar
Com os trilhos de todos os caminhos
Que já não podem ser feitos

Qual silêncio caberia ainda fazermos?

O trem apita vigoroso
Como quem impõe silêncio com um grito
Joga fumaça às nuvens
Você se espreguiça
Conta os dedos dos pés
Faz um jogo consigo
Se a noite trouxer lua nova escreverá um poema e o enterrará
Nas raízes de uma nogueira
Se lua crescente sairá à procura de um pássaro que não saiba cantar
O manterá em cativeiro até a tristeza desabrochar algum som
Se lua cheia procurará entre postos de gasolina o indivíduo de olhar mais triste
Se gostar de Dylan e cair uma chuva forte durante a noite
Pela manhã uma menina brotará nas terras esquecidas da América Latina
Se lua minguante fechará os olhos e abrirá a janela
Meu cheiro construirá os trilhos às lembranças que eclodirão no desejo de fuga
De outras luas
Mas foi e será sempre
A mesma lua

O trem apita vigoroso
Uma roupa no varal sacode
Uma fábrica incendeia
Uma caneta se parte e a tinta vaza entre os dedos azuis
O trem apita vigoroso

Nós nunca fomos de muitas palavras
Nosso tempo não era precioso
O futuro residia no cheiro do presente
O passado despejado pela saudade da consciência
Forjada na dor enquanto o trem se distanciava
Com você e nós
Pés velozes e vagões leves
Você é a razão pela qual estou viajando
Você é a razão pela qual me tornei viajante
Para grudar em mim o olor do mundo
Preso no meu corpo de couro
Amaciado na haste de uma flor
Um botão fechado esperando em silêncio
Pela eternidade
O toque do seu nariz


Tiago André Vargas
29.04.2018


domingo, 3 de fevereiro de 2019

Quando o espaço entre os teus olhos adormece um caminho






Quando nos disseram que estava amanhecendo
Nós dois olhamos para cima

Havia uma grande dificuldade em darmos as mãos
Como se elas fossem países
Com profundas desavenças históricas
As pessoas à nossa volta
Assustados flamingos
Partiram
E eu toquei teus dedos tatuados com um gesto de concórdia
Para que todas as gerações da nossa superfície
Pudessem viver em paz

Nunca te disse, mas
Eu deixei os buracos da persiana abertos
Para que alguma luz do amanhecer
Pudesse tocar o seu corpo
Para que alguma luz do amanhecer
Pudesse tocar o meu olho
Espinhos no teu ombro
Um gato me arranhou aqui
Tocando
O coração

Pedaços de som despertos
Produziram uma leve chuva de cristais em nossa cama
Como quem quebra uma lâmpada
Agora
Era preciso se mover com cuidado
Através dos sonhos

Obrigada
Você esticava a última vogal
Obrigadaa

A distância entre os teus olhos comportava um espaço adequado para beijar
Um beijo sem desejo
Um beijo em forma de dedo
Cutuque leve
Na porta de entrada de alguma percepção
Nessa mente curiosa
Que dançava como uma serpente drogada
As associações possíveis com o meu nome
Sobre a necessidade de se dar um nome
Ter um nome
Saltando rapidamente
Um bote
No anonimato de tudo
Ao contemplar um gato amarelo
Escalando uma árvore

Ele se parece com você
Ele só quer brincar e ver as coisas

Você sorriu
Sem jamais saber
Se aquilo era um elogio
Ou uma forma educada de
Dizer adeus

03/02/2018
Tiago André Vargas


domingo, 24 de dezembro de 2017

Fantasmático




Quando eu morri
Meu neto escreveu um livro
E descreveu nele minhas mãos
Como grandes aranhas albinas
Sua juventude temia minhas mãos brancas
Os dedos truncados de enxada
Enxofre
E todos os êxodos que nunca me permiti
Mas agora que estou morto
Ele sente minha falta
E a dor faz com que não tenha mais medo
Das aranhas albinas
Negras
Pardas
E eu também sinto sua falta
E do mesmo jeito que ele nunca me disse
Que minhas mãos pareciam aranhas brancas
Eu nunca lhe disse que a luta é inevitável
E a dor tem oito patas
A tecer coisas belas
Que nem sempre viram pedras
Enquanto durar o sol da manhã
A brilhar nos nossos oito olhos
Como um lago muito fundo
Que eu mergulhei só um pé
Teu pé é branco, Tiago
Mas teu coração, não
O teu sangue dói e pinta as pedras do rio
Mas também é a teia
Que junta a ti
Agonia de pontes finas
Cordões de fendas
E coisas belas
E pequenas
Que quando vibram
Você corre veloz
Elas devem ser protegidas
Se possível vivas
Nós dois sabemos que
Quando acabar o sol da manhã
A noite denunciará esta brancura
De que nunca conseguimos nos ver livres

José Villa Vargas
24.12.2017



segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Doces e outras feridas em um dia nublado




Eu arquei com o peso da tua arcada dentária
E os outros arcos do teu corpo
Lançaram uma flecha de significado para o alto
Que furou a perna de uma nuvem gorda
Ela está agora ao meu lado
Na fila do plantão vinte e quatro horas
A nuvem me pergunta se tenho moedas
E olha com prazer e remorso para a máquina de doces
Faltam vinte e cinco centavos
Para comprarmos a pior porcaria que era vendida
Digo para ela fechar os olhos e pensar em açúcar
Logo ela toma uma postura nublada
Eu corto um dos meus dedos
Não abra os olhos!
Eu o coloco na sua boca
É uma bala muito dura
Que vai demorar muito tempo
Para derreter
É açúcar
E morango virgem
E outras coisas cítricas
Como o sangue doce e imbecil
De um grande inseto com pensamentos doces e imbecis
Ela sorri
Seu rosto parece um tempo aberto
E seus lábios vermelhos
Trovoam nos olhos do próximo da fila
O médico
Ao perceber que esqueceu seu guarda-chuva
Fura a fila
E a chama em seguida
Eu
De saída
No dever cumprido da minha vida esquecida
Antes de cruzar a porta
Sou visto por uma enfermeira
Que com tédio e zelo
Olha para o meu dedo
Ou sua ausência
Perguntando se eu quero um curativo
Qual é meu adjetivo preferido
Se meu olho é esquivo
Se quando limpo os meus pés o faço de um modo expressivo
E se meu sangue é positivo
Negativo
Eu respondo que é lenitivo
Saio pela porta
Chupo meu dedo
Ou sua ausência
Invencível como um bebê de mil anos
Faço do meu coração um arco
E me projeto para o alto
O significado que você nunca alcançou
Acerto em cheio uma nuvem nunca vista

Uma tempestade se aproxima
Com grande calmaria
Do outro lado do mundo

T. A. Vargas

04.12.2017



domingo, 22 de outubro de 2017

Mano




Sempre fui um bom carona
Ao volante, meu irmão mais velho
Torcia o pescoço
Retorcia um sorriso filogenético
Ao me ver colocar o cinto
Eu dizia
Mano
E mostrava meus dentes cariados
Durante a fuga do cheiro podre da minha boca
Um cheiro que o mundo conhecia
Que antecedia qualquer lembrança ou pensamento
Que de mim fosse feito
Mas meu irmão parecia não se importar
Talvez até gostasse
Como alguém aprende a gostar do hálito do seu cachorro
E eu dizia
Mano
Eu peguei uma música
E ele ria
E eu ria, pois me sentia um caçador
Algum tipo de caçador de sonhos
Ou mesquinharias belas da vida
Que não pertenciam a nós
É mesmo? O que você pegou?
Tocou naquela rádio que você me mostrou, apertei o rec bem rápido, peguei ela inteira
Coloca aí então
E eu colocava
Eu olhava fixamente para o rosto do meu irmão
E eu conseguia identificar alguns traços da minha mãe
E outros que pareciam ser exclusivos nossos
Como o queixo
E desprezar os outros irreconhecíveis
Que só poderiam ser dos pais
Que ambos desconhecemos
Um coral abria a canção
Eu observava fixamente as expressões do meu irmão
Ele me parecia um quadro sem moldura
Enquanto o mundo sempre o viu como uma moldura sem quadro
Um oco desprovido de carne
Eu sempre tentava
Tentava capturar as emoções que a música poderia suscitar
Ele sempre foi tão sensível
Guardava um punhado de argila no seu quarto
Impedia que as pessoas a tocassem
E tudo isso não era em vão
As sobrancelhas caíram
Com a música
Como folhas
Com a música
Os olhos se apequenaram
Como os sonhos da vida adulta
E um inseto andava pelo vidro do carro
Na parte externa
Indiferente com o rumo da vida
Ao virar o rosto, chorava um pouco
Tirei a fita
Eu já sou homem, disse
Você não deveria estar nessa, mano
A mãe precisa
Ele me alcançou o 38
Te espero ali, naquela bomba
Saí do carro, o posto estava vazio, nos dias de chuva sempre tem menos movimento
Meu irmão empurrou a fita de volta
O som foi interrompido por dois tiros

Meu irmão ao volante
Olha para o banco do carona
Vazio
No de trás, nossa mãe está de óculos escuros
Somente ele chora
No seu quarto um inseto caminha
Sobre a argila, seca
Mas já ninguém pode ver



Tiago André Vargas
22.10.2017



domingo, 10 de setembro de 2017

Quatro dedos infinitos




Sob o cadáver de um domingo
São noticiadas estratégias para a contagem de papéis
Os dedos cruzados, partidos, corrediços
Miles Davis crucificado na parede azul sem fiéis

Tudo isso se apresenta como algo novo
A novidade incumbida de fossilizar os escombros
Para que turistas de outro tempo tanto quanto insones
Possam coçar suas bermudas caquis em museus de Iphones

E as crianças vão chorar nesse museu
Como tudo que é novo chora diante do antigo, diante do cinco, do seis, do sete, do s
E os adultos a comprarem sorvetes para conter as lágrimas dos pequenos seus/eus
Sairão do museu antes da última atração, o assustador trompete

Um desconhecido aparece em milhões de caixas coloridas com um galo debaixo do braço
Em Tókio uma criança descobre um empoeirado teclado

Como odiar Protágoras depois de escutar que o homem é a medida de todas as coisas?

Tiago André Vargas
10.09.2017



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Refri de laranja para quem tem sede de sonhos e outras epifanias que cabem numa fritadeira

“Algumas pessoas só conseguem dormir com algum peso sobre o corpo, eu era assim”. Foi o que eu escutei enquanto adormecia na rodoviá...