quarta-feira, 13 de julho de 2011

Olhando para o céu



E assim ele fora traído, com uma imagem imaculada e um invólucro de carmim. Assim ele padeceu perante os outros de mesma veste, tentando escrever com a mão ferida alguma palavra inusitada para causar admiração.
Débil.
Assim 4 séculos correram enquanto o homem permanecia jogado ao chão, humilhado, sujo e decomposto sendo encarado. Seus amigos? Eram. Era. Não.
Por fim ergueu-se como um cego tateando a multidão, causou repúdio, perdeu o escoro, caiu no escuro. Fez algo, logo o interesse fora desviado e todos se afastaram. Ninguém mais lhe olhava porque lá ninguém mais estava.
Ergueu-se só, os pés desnudos encontrando amparo na terra árida, seus pés numa dança de movimentos curtos, testando a mesma, ganhando sua confiança. Um cascalho se aloja entre seus dedos semi-inertes.
Espira.
Equilíbrio.
Sentiu as costas da mão. Apertou-a. Fez do próprio corpo fruta madura jorrando suco de amora. Dor. Este era ele, traído, sem saber o que fazia.
A dor lhe disse: “Abra seus olhos”
Viu-se torto derretendo sob o deserto com um abismo há alguns passos.
Correu aos tropeços sem confiança enquanto aprendia a caminhar, o corpo perpendicular ao solo, o corpo violando a física, o corpo fugindo do próprio corpo como um quadro surreal ganhando vida. Um grito de fúria e desistência, um grito de resiliência, um grito senil aos tropeços rígidos flagelando matéria para o abismo.
Tudo seria uma obra falha que jamais seria notada, não fosse à perna deformada que em contato com a quina lânguida deu o último e único impulso rumo à nuvem laranjada e o homem traído deforme implodiu-se em nada, virou duas asas e cegou a menina que lhe apontava enquanto rumo ao sol voava.

Autoria de Tiago André Vargas

Foto encontrada aqui.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Ninguém dança Blues. Ninguém escuta chuva.



Muitas pessoas no mesmo lugar, mais próximas do que o habitual. Nem desejo nem espontaneidade. Chuva.
A chuva caindo ritmada como dedos de um baixista, errantes na tentativa de fecundar o solo, batendo de cara no asfalto ou qualquer coisa de cor sóbria, morta.
Todas narinas vermelhas puxando indiferentes o vento gélido enquanto aguardam pelo seu ônibus. Sentindo o perfume da água escoada pela cidade cinza. Como alguém lavando o peito para limpar uma dor que está no coração.
Um grande cardume vivo dentro de um enlatado sobre rodas chega e alguns se vão.

Sabe me dizer se o ônibus da linha 5 já passou?
Acabou de passar.
Bosta.

Esses dizeres quebram o silêncio e mais nada. Ninguém diz nada. Sardinhas pulando dentro do enlatado.
No canto da parada havia mais espaço, um mendigo de casaco marrom ali estava e ninguém queria ficar muito perto. Ninguém sabia se o casaco era daquela cor ou se estava sujo. Ele tinha o mesmo perfume da chuva que caia sobre as caneletas, mesmo quando não chovia.
O mendigo exauriu sua respiração, como se um médico invisível tivesse lhe dito “Expira” e em seguida abriu seu casaco de cor indefinida e sacou uma harmônica.
Correu seus lábios sobre ela como se estivesse a satisfazer a mulher que mais amou, fez música e com a chuva se transformou encanto. Todos olharam para ele. Como se um peixe estranho tivesse surgido em um mar de sardinhas. Ele morde? Não. Todos voltaram a olhar para o nada esperando o enlatado gigante. O Blues continuou tocando, a chuva de fundo, e, inexplicavelmente, tudo começou a fazer um perturbador sentido por ninguém visto.

Sabe me dizer se o ônibus da linha 6 já passou?


Autoria de Tiago André Vargas


 Foto encontrada aqui.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Você estará lá por mim



Passei todo este domingo sozinho

Celebrando a tristeza que um domingo há de ter
Olhei velhas fotos de sorrisos entre amigos
Que afinal não eram tão velhas, pude perceber

Então me lembrei de histórias sem autores
Contatas ao pé do ouvido durante uma infância sem fim
Eram sussurros que falavam de amores
Postas no singular e inventadas para mim

Elas diziam sobre o encontrar, o despertar e o permanecer
Sobre desconhecidos em um elevador sorrindo sem motivo
Sobre o espreguiço compartilhado antes do amanhecer
Sobre o amor como um castigo escolhido e bem vindo

Uma música iniciou suave como orvalho caindo ao chão
Desfiz aquele domingo de mim e desvencilhei-me do tempo
Deslizei pela janela aberta sem controle nem razão
Queria escutar aquela declaração que vestia lamento

Acordei cortado ao meio pelo vento da praia tom de sépia
Pensando algo que poderia escrever para o mar apagar
Talvez estivesse morto, mas despertei da infame apneia
Quando senti teu cheiro dançando junto à brisa do mar

Olhou-me afetuosa segurando meu dedo
Com ele pressionou a areia escrevendo:

Saiba que eu sempre estarei lá por você.

O mar apagou o que estava escrito e nem era preciso
Eu me acordei entre fotos sobre a mesa da cozinha
Abri os olhos e agradeci por todos os próximos domingos
Você do meu lado saiu do quadro virando poesia


Autoria de Tiago André Vargas


Foto encontrada aqui.


terça-feira, 21 de junho de 2011

Carlos, o segurança


Meu nome é Carlos. Eu sou segurança de um shopping center. Mas um segurança de shopping center não é o que sou. Sei que não consegue acreditar nisso, mas, enquanto você sai pelas portas que se abrem com sensor de movimento eu olho para você e sinto compaixão, mas tanta, que quase brota uma lágrima no meu olho. Isso acontece porque eu queria que você fosse especial, mas dona, você é mais uma cópia do que eu vejo saindo a todo o momento por esta porta. Meu nome é Carlos, basta olhar para o crachá. No teu pescoço tem ouro e tantas outras coisas que brilham, mas não vejo nenhuma sequência de letras que forme um nome. Em meu quadril tem uma arma, sou segurança, veja por você mesmo. No seu tem um cinto cuja a fivela é importa do Congo, a produção é Indiana e barata, mas só essa fivela... São 2 meses de salário dona. E as minhas mãos... Ficam na cintura, eventualmente, ficam na arma quando alguém eu quero impressionar, transmitir segurança. Eu sou segurança dona, não olhou ainda o meu crachá? As tuas mãos carregam coisas, tantas coisas que talvez a alça plástica da sacola machuque sua mão delicada. Uma das sacolas é de mercado. Queria poder ver teus olhos escondidos nesses óculos escuros... Mas de qualquer forma, eles não olhariam para mim. Acho que moças são ensinadas a desviarem os olhares de homens, tem dias que nenhuma mulher me olha nos olhos... Já os homens olham, sempre para as mulheres que não olham. Eventualmente um homem me olha nos olhos porque não tem nenhuma mulher por perto, então, nos dois não temos para onde olhar... É quase uma troca mútua de solidariedade, afirmando “Que lugar de merda esse hein?”. A moça entrou no carro... Soltou a sacola e balançou a mão, provavelmente comprou fruta. Fruta pesa. Sabia que ela iria machucar a mão. Um ré cuidadoso... Quase demais... Pronto. Alinhou o volante e partiu. A porta de sensor está fechada. Abriu! É uma mulher. Gostei do colar de prata. Você usa sandálias... Tem uma boca voluptuosa... Meu nome é Carlos, eu sou segurança, mas segurança, não é o que sou.

Autoria de Tiago André Vargas





quinta-feira, 16 de junho de 2011

Contínua continuidade



Era uma quinta-feira de céu fechado, havia uma massa cinza grudada no céu que trouxe a escuridão previamente, eram 3 horas da tarde mas aparentava ser mais... Será que chove?
A bela Ana Paula... Sempre a bela Ana Paula, rosto apoiado sobre a mão em volta do queixo e os olhos próximos do vidro da janela, quantas vezes essa bela mulher de pele descorada faria isso? Isso acabava comigo.
Aquela balzaquiana de cabelo negro pensava... E como gostava de pensar! Pensava tanto que o filósofo do povo lhe diria que isso lhe fazia mal, maldito seja. Observava as gotas de chuva caírem sobre o vidro da janela em fronte ao seu rosto, observava que uma delas ali ficava, andava um pouco e então, outra vinha e a empurrava para frente, sempre no mesmo caminho, sempre uma linha contínua.
Isso lhe fez pensar na vida. Isso lhe fez pensar que quando caímos no vidro começamos a traçar um caminho e nele seguimos. Às vezes queremos parar mas algo nos move para frente, no mesmo caminho. Por que o mesmo caminho?
A vida é início e fim. Tudo nela é o meio termo, a linha que liga os pontos. Aparentemente precisa ser lógica e coerente como uma reta, sensata como um currículo que demonstra o quanto capacitado somos para um emprego, o quanto responsáveis somos para o trabalho, o quanto vegetais somos para o mundo. Previsíveis, contínuos. Por que é desta forma? Talvez pelo simples fato de ser fácil controlar aquilo que não oferece surpresa e assim o sistema se molda e nenhum ato se torna isolado, nos tornamos escravos das ações passadas e escrevemos o futuro sobre um livro de páginas marcadas. Prefere-se a infelicidade do que a falta da continuidade. Aceita-se aquele que ergue muros de racionalidade e é infeliz por dentro, trilhando um caminho que julga ser seu e aceitando a incumbência da infelicidade, inclusive este indivíduo é aceito com méritos enquanto aquele que muda de vida e corre riscos por motivos seus (busca de felicidade, nova percepção, etc.) é taxado de louco, ele é minoria e como se sabe para esta sempre é cabível um dedo apontado para o rosto.
          Ana Paula observou que uma das gotas presas no vidro não se movia. Nenhuma outra gota nela tocava para que continuasse o seu percurso, logo, um vento forte manifestou-se sacolejando a janela e fazendo com que a mesma mudasse o percurso, desprendeu-se do vidro e voou rumo ao desconhecido. Ana Paula sorriu. Por algum motivo pensou que aquela gota seria mais feliz. Por algum motivo.

Autoria de Tiago André Vargas


Foto encontrada aqui.

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“Algumas pessoas só conseguem dormir com algum peso sobre o corpo, eu era assim”. Foi o que eu escutei enquanto adormecia na rodoviá...