domingo, 16 de fevereiro de 2014

Me passa



Sentados à mesa
Me passa o pão
Me passa a manteiga
Empurra o coração

Tens medo que este eu não queira comer
Ela não me passa
Fica ao meu lado
Rutilando seu meu seu ser
Regando com talante nossa graça
Dentro do sol de bule molhado

Vida tropeçada na manhã de domingo
Uma pantomima de castigo
Por ter vencido a janela aberta
Que ilumina o silêncio da paz estendida

Sobre a mesa
Beijo o sobrolho
Sempiterno sabor cereja
Dentro do amor fora do sonho

Para calendário cozer
E retina querer
Me passa
O que vai ser

Tiago André Vargas
16.02.2014




Imagem de Maria Mery


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Reprise


No dia mais feliz
Vivia-o
No dia mais triste
Vivia-o

Mesmo dia despercebê-lo
Mais tarde concebê-lo
Até no hoje
No hoje sentir e confundir

O dia mais feliz
Menti-o
O dia mais triste
Menti-o

~

O Tempo na sala
Me assiste
Em retrospectiva introspectiva
Chiste
Ranking de céu e terra
Balanço de vida
Fora de risco de poesia
Reprise
Troca o canal da minha memória
Cai numa mulher vendendo joias
O preço destas não é justo
Melhor assim

Esta oirada nostalgia
Só compra quem pode e não precisa

Tiago André Vargas
04.02.2014

domingo, 26 de janeiro de 2014

Ventila dor diz que sim



Marisa empunhava violão, dedos oleaginosos de verão, ativista em mister do ressequido imo. Sem amor é mais fácil compor, supôs, impôs, um dedilhado correu pelo vazio da sala enquanto girava sua face, esperançosa que a música pudesse trazer algo, canto de sereia em cordas de aço, ventilador ligado como a base de um new age insueto.
Sua voz aguda. Um livro do Abreu destacado, grifo amarelo sobre astrologia e sexo despudorado nas luzes que cortam a noite em fatias. Marisa queria compor uma música sobre o mar. Sem amar é fácil falar do mar. Nos dias de menor sentir maior filigranar.
Sentiu-se gárrula.
Diapasão no gritar mar. Súplica equórea. Estende-se vogais. Entende-se em linhas gerais do não pensar.
Do compor um torpor dos dedos calor, Marisa era a nuca que se despedia do silêncio. Jogava pelas paredes claras os sons como se fossem cartas, aleatória em leve crescer de angústia e sonoridade, prelúdio da dor mais intensa antes do cessar.
Saiu da sala.
Foi estender roupas.
Por fim nada perpetuou: nenhuma letra rabiscada, nenhuma música memorada. O que não pode ser lembrado, alguma vez existiu?
O ventilador por ela enamorou cantando única nota sabida. Reverdeceu-a por alguns instantes, depois se manteve sozinho na sala negando com a cabeça, incrédulo por estar só.
Máquina alguma podia ventilar aquela dor.
Voar para compor Marisa era coisa de tempestade abraçada em calmaria, sem tomada, tombada nos braços de um amor que nada cria.
Vida estendida no sol do fim do dia. Fugaz compor a dor.
Ventilador diz que não.
Ventila dor diz que sim.

Tiago André Vargas
26.01.2014

Imagem de Guillermo.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Anzol



Água aflita
Duas colheres de sal
Uma de afeto
A lágrima de um boi como cereja
E uma tempestade para baralhar
Eis outro mar
Preso em fotografia descolorida no vórtice da esperança salicina que escorreu pelo tronco
Pelo dorso
De uma mulher com olhos de madeira
De um homem com olhos de capim
O céu se abre e cai um anzol
Este derrui a minhoca
O peixe
Por fim o homem
Todos vergam como alimento dos sonhos
Sonhos que nos pescam
E nem sempre nos devolvem para o mar
Ou para o suor que escoe na pele pormenorizada de quem se ama
Ondas
Amava
E um novo mar ressurge
Tiago André Vargas

29.12.2013




segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Duas linhas ninguém pode atravessar



Guinada
Contra a mão
Um aperto
Guirlanda esquecida
Sem lar é travessia
Dezembro de fome
Pináceas e intentos
Partido contra o diminutivo
Abandono do limbo
Tanto quis
Ninho
Limbo
Ninho
Agora
~
Alcatrão
Sem acostamento
Ponteiros do cinzeiro indicam
Oito e quarenta e oito para o meu amor
Afogado no calendário em janeiro
Acordou de fevereiro
Vênus de asfalto
Amarelo
E vestido sem linha
Contramão
No céu um paramedo
Para, medo
Vou vomitar de tanto rir
Nas costas dos teus segredos
No fechar do guarda-chuva no deserto
No atravessar da linha
Sem vestido
Amarelo

Eu vou
Você vem

Duas linhas ninguém pode atravessar


Tiago André Vargas

16.12.2013


Imagem de Banksy.


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Zumbir e Zanzar





Eu não gosto de insetos
Insetos não gostam de fumaça
Gosto de fumaça se só,
Queimo
Desfaço-me em completas partículas no meio vento
Algo inexistente reinvento
Morrendo mais depressa para afastar a travessa
Cheia de insetos, grades e promessas
Eu
E
A fumaça também se desfaz
Desfez
No momento seguinte
Nunca existiu
Eu não gosto de insetos
Não os compreendo
Nem por isso os queimo
Me deixe zumbir e zanzar por aí

Tiago André Vargas
09.12.2013


Pintura de Leah Saulnier.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Seolhar Seuolhar





No ar
Asas
Olhar
Casas

E os dedos na janela

Olhar pelo ar
Teu olhar como lar
Até o olhar librar
A alma trincar
As asas batemos
De casa troquemos
Seolhar
Seuolhar
Peloolhar
Quenãovejo
Os olhos cero
E um beijo
Sem lábios
Desabrocha
O silêncio

Silêncio

Os dedos querem muito conversar

Tiago André Vargas
01.12.2013

Pintura de Edward Hopper.

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