quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Som e fúria



A única beleza
Tombada no cântaro
Da literatura
É o grito
Rasgado
No incontestável
Silêncio

Tiago André Vargas
17.02.2016

Pintura de John Martin

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O sol pichado no rio que parece ser mar dentro de nós



No meio do fio da madrugada uma pichação em espanhol acorda a alma latina, sonâmbula, sentada na latrina. Dá vontade de gritar com eloquência uma língua desconhecida, dá vontade de chupar com magnificência uma língua desconhecida. Depois passa. Eu passei; o muro também. Do mesmo jeito que passei por Montevidéu e tatuei o cavalo de Artigas na minha coxa. Esquerda. A tatuadora a fez enquanto olhava o Río de La Plata. Estávamos em um prédio alto, que olhava para o Río de La Plata. Já as pessoas que estavam no prédio alto olhavam para as pessoas que estavam na Rambla, e as pessoas que estavam na Rambla olhavam para o Río de La Plata acreditando que olhavam para o mar.
O Río de La Plata olhava para dentro de si. Ele via o mar.
Eu me lembro de Galeano dizer que Montevidéu é uma cidade que ainda se pode respirar, e que respirar é importante. Talvez previsse a sua morte, a complicação com o câncer de pulmão. Não é raro saber o que nos matará. O incomum, talvez, seja afastar-se pela mão da sabedoria, e não da dor. Quem parava, e olhava para o rio pensando que olhava para o mar, ou ainda, quem olhava para o rio sabendo que olhava para o rio, na verdade do fundo da água morna da cachola da existência: olhava para si. É um efeito lindo, profundo, tão metafísico quanto cortar um pimentão amarelo e nascer o dedilhado de um violão triste: olhar o horizonte. A linha do mar e do céu. A linha da pichação na parede. Uma cidade vizinha do mar, ou de um rio que parece ser mar, é um convite à reflexão, bem como os gritos da mais imparcial das imprensas (validados pela cólera da transgressão) grudados nos muros de quem não tem interesse, ou dinheiro, em novas tintas para suprimi-los. Que gritem, enquanto pensarem ter voz. Que façam ondas, enquanto pensarem ser mar.
Os poros engoliam o sol de semblante sereno, com seus oito raios agudos e oito ondulantes. Um vento forte batia na água e fazia carinho nos cabelos. E se é para ter uma alma, que ela seja assim.


Tiago André Vargas

22.01.2016


Montevidéu, janeiro de 2016.


domingo, 27 de dezembro de 2015

A busca pelo olhar presente



Desde que iniciei a transcrever uma passagem para cada livro lido, este foi o mais difícil. Édipo Rei, de Sófocles, na qualidade dramatúrgica das clássicas tragédias gregas, principia com falas enigmáticas de intensidade suprimida, conduzindo assim, lenta e sabiamente, o drama. Ao final a carne se abre, junto com a intensidade das falas e ações. É teatro, vivo, de um sangue humano que após dois milênios continua com o mesmo gosto.
Vamos à passagem:

Creonte: Direi, pois, o que me disse o deus. Ordena-nos Apolo que apaguemos a mancha que alastrou na nossa terra, que a façamos desaparecer, em lugar de a deixarmos aumentar; devemos recear que se torne inexpiável.
Édipo: E de que espécie é esse mal? Que expiação?…
Creonte: Expulsando um homem dos nossos territórios ou vingando o crime com o crime, porque é um crime que está arruinando a cidade.
Édipo: Contra que homem foi cometido o crime de que fala o oráculo?
Creonte: Senhor, foi contra Laio, outrora rei da nossa terra, antes de seres tu o chefe da cidade.
Édipo: Já ouvi falar disso; eu nunca o vi.
Creonte: O oráculo ordena claramente que sejam castigados os que assassinaram esse homem.
Édipo: Em que terra estão? Como se há-de encontrar qualquer vestígio desse crime tão antigo?
Creonte: Diz o oráculo que há vestígios na cidade. Só se encontra o que se busca; o que nos é indiferente, de nós foge.

Sobre a passagem: nada de dramaticidade. Apenas uma fala para salientar como é genioso ‘buscar’. E, caso aquilo que se busque não seja passível de ação (seja por limitação, ou por reflexão) é imprescindível, mesmo dentro da inanição, reconhecer o que gostaríamos de alcançar. Pois, se a ‘sorte’ nos visitar, só a reconheceremos como ‘sorte’ se já estivermos imbuídos com o gosto deste encontro. Sem isso, não a perceberíamos como tal. Ainda (e principalmente): após o encontro, a busca continua. A realidade nunca é estável, permanecer imutável é dar asas para a indiferença, que, foge. Muitas vezes levando consigo o que, após perdermos, não nos era dispensável. A única maneira de vencer a indiferença natural que decorre sobre o ‘achado’ é recriando o seu significado, ou então, a maneira de vê-lo (recriando a si próprio). Édipo vai dizer: “Que me importa ver, se nada me era agradável à vista?”. Nesse ponto do drama, Édipo era incapaz de atribuir qualquer significado, nada do que poderia ver conversaria com a sua existência. Para isso, mudou sua maneira de enxergar: Arrancou os próprios olhos.


27.12.2015
Tiago André Vargas

Louis Bouwmeester como Édipo, na produção alemã de "Oedipus the King"  - 1896


quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

O isqueiro está na terceira gaveta



Eu me lembro da luz
Flâmula
Da grandeza da miúda vela no teu pequeno apartamento
Da fumaça que morria nos teus cabelos
Devagar
Como um navio fantasma
Engolfando a proa no peso da noite

Eu me lembro
Do meu nariz
Grande e atarantado
Procurando tua raiz
Teu fumo e teu sumo
Chafurdado na nuca telúrica
O arpéu da narina preso ao brio
De um brinco que você não tirou
Naufragando
O que tua boca não separou
De mim

Eu não me lembro
Do poema
Que inscrevi
Nas tuas costas
Mas me lembro
Da tua aflição
Por não conseguir lê-lo
E me lembro do ferrão da abelha
Que fecundou o teu lábio superior
Enquanto você falava que estávamos em dezembro
Enquanto você falava que seus braços eram flexíveis
Enquanto você sonhava sobre mim
Como se estendesse um cobertor sobre uma cama bagunçada
Que não precisa ajeitar
Só precisa ser quente

23.12.2015
Tiago André Vargas

Fotografia de Tiago André Vargas


quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Au, au e estamos conversados – Marcelo Mirisola



Passagem do conto “Qual o Mal de a Mina?”, do livro Fátima Fez os Pés para Mostrar na Choperia (Editora Estação Liberdade, 1998), do autor Marcelo Mirisola:

(...)
Hoje é a palavra pela palavra. A solidão da coisa feita. Ou a indisposição de frequentar o casamento dos amigos. Eu lhe digo, embora não tenha nada a ver com esta viadagem de dizer “porque eu sou um artista e coisa e tal”, eu lhe digo a mesma coisa que eu disse para a armeniazinha do Bom Retiro, sabe, meu amor, quem faz arte como eu serve a morte; morre várias vezes ao invés de viver uma vidinha de armarinhos; daí vem a demagogia e a comparação que eu sempre faço nesses casos: “que nem cachorro”, sabe? Sem frescuras do tipo “Bom dia, como está?” Cheirando logo o cu da rapaziada. Se Michelangelo, para falar de um cara que todo mundo conhece, vivesse hoje e pudesse escolher, cheirava o cu da rapaziada e vice-versa. Au, au e estamos conversados. Depois ele iria cuidar de Davi e de Moisés. Que, bem verdade, são exemplos latentes, primeiro Moisés e depois Davi, da solidão da coisa feita.
(...)
Agora é para você, meu amor.
Sou capaz de matar por uma guimba manchada de batom. De ser um santo, quer dizer, o que eu tenho vontade mesmo é de ser garçom. De verdade mesmo eu tenho vontade é de cobri-la na porrada, de quebrar a sua cara e falar algumas coisas que você não vai compreender. Também dar uma volta de pedalinho no Lago Lundoya, minha branquela, e depois comprar uma maçã do amor para nós dois e mais um sorvete de flocos para mim. Pegar na sua mão e dizer que amo você.

17.12.2015


Fotografia de Jonatan Mattsson.

domingo, 6 de dezembro de 2015

E nós estamos dançando - Chuck Palahniuk



Passagem do livro Sobrevivente (Survivor - 1999), Chuck Palahniuk:

(...)
O cabelo dela parece que foi colhido num campo e empilhado na cabeça dela para secar.
"Ele chegou a te contar do cruzeiro em que ele me levou?"
Não.
"Foi totalmente ilegal."
Ela olha da Catacumba número 678 para o teto, de onde vem a música, dos pequenos alto-falantes ao lado das nuvens e dos anjos pintados.
"Primeiro, ele me fez ter aulas de dança com ele. Aprendemos todas as danças de salão, o chá-chá-chá, o fox-trote. A rumba, o swing. A valsa. A valsa foi fácil."
Os anjos tocam sua música acima de nós durante um minuto, dizendo algo a ela, e Fertility Hollis ouve.
"Me dá", ela diz, virando-se para mim. Então ela pega as minhas flores e as dela e as coloca encostadas na parede. Ela pergunta: "Você sabe dançar valsa, certo?".
Errado.
"Não acredito que você conheceu o Trevor e não sabe dançar valsa", ela diz e balança a cabeça.
Na cabeça dela ela tem a imagem do Trevor e eu dançando juntos. Rindo juntos. Fazendo sexo anal. Estou com essa desvantagem, isso e a ideia de que matei o irmão dela.
Ela diz: "Abra os braços".
Eu abro.
Ela fica bem diante de mim e coloca uma mão atrás do meu pescoço. Sua outra mão segura a minha mão e ela estica o braço, à nossa lateral. Ela fala: "Pegue sua outra mão e coloque em cima do meu sutiã". Eu obedeço.
"Nas minhas costas!", ela diz, e se desvencilha de mim. "Coloque a sua mão sobre o meu sutiã onde ele cruza a minha espinha dorsal."
Eu obedeço.
Para nossos pés, ela me mostra como dar um passo adiante com meu pé esquerdo, depois com o direito, e depois colocar os dois pés juntos enquanto ela faz o mesmo na direção contrária.
"Esse é o chamado Box Step", ela ensina. "Agora preste atenção na música."
Ela conta: "Um, dois, três".
A música vai. Um. Dois. Três.
Contamos várias vezes, dando um passo a cada vez que contamos, e estamos dançando.
As flores em todas as catacumbas por todas as paredes se curvam sobre nós. O mármore corre liso sob nossos pés. Estamos dançando. A luz entra pelos vitrais. As estátuas estão esculpidas em seus nichos. A música sai fraca dos alto-falantes e ecoa pelas pedras até que começa a ir e vir em ventos e correntes, em notas e acordes ao nosso redor. E nós estamos dançando.
(...)

06.12.2015


Fotografia de Markus Probst.


domingo, 29 de novembro de 2015

Quando você monta em um leão não dá para apear



Você me olha como uma porra. Você me olha como uma mulher feliz no zoológico no momento excelso: a jaula do leão. Você me olha como uma mulher que não leu Beauvoir e teme a beleza do fio de cobre na garganta de um amante de diamante, pensando que, se não é vaidade, deveria ser amor. Você não diz isso para o leão, que sou. Você joga uma pipoca pela grade. Ela tem sal. Cai no meu olho. De leão. Eu poderia rugir, mas, sefoder. Você jogou uma pipoca pelo meu bem. Você jogou uma pipoca porque você possui uma pipoca e é isso que se espera de alguém com uma pipoca. Você. Sefoder. Deixo meu pau de leão rubro e inchado, como se trinta e duas abelhas tivessem picado minha pica. Você fica tão vermelha quanto minha glande. “Que horror”. A vida é um horror, queria poder dizer, esse pau é um presente. Mas só posso rugir. E eu não vou rugir. Se eu rugir as pessoas jogarão mais pipocas, as pessoas tentarão tirar a foto excelsa da minha boca aberta. (Eu aprendi hoje a palavra ‘excelso’ no dicionário de pensamento felino). As pessoas gostam das garras, dos dentes, gostam de dizer que gostam das garras, dos dentes, mas as pessoas fogem de um leão solto. As pessoas não suportam o olhar frontal de um animal livre. Não suportam um pau roxo da cor do palato do céu do sentimento. “Você parece um leão com esse cabelo. Deveria cortar”. Ela me olhava de baixo para cima. Um ângulo que favorece minha juba. Ela corre os dedos pela minha juba. Ela olha com fascínio minha juba. É o momento que nasce ou morre o amor. EU SEMPRE QUIS TER CONSCIÊNCIA DESSE MOMENTO. Se eu falar que cortarei o cabelo bang! O amor está morto. Não sabia se o queria vivo. Sempre quis a consciência desse momento e agora me arrependo de tê-la. Eu aprendi que a morte é algo ruim. Sempre. Eu deveria ter lido Céline ao invés do dicionário de pensamento felino. Eu falei: “Sefoder. Sou a porra de um leão”. O amor que nasce de uma contradição é dois miligramas mais forte. Ela me olhou como Beauvoir o fez com Algren, quando descobriu que o pau e a vida de alguém que sente são muito mais interessantes do que o pau e a vida de alguém que pensa. Ela. A cabeça apoiada no meu colo. O olhar de baixo para cima. O meu pau cutuca a sua nuca, ela sorri, meu pau cutuca novamente, ela sorri e fica angustiada, sabe que a próxima cutucada é só uma questão de tempo, que acontece, ela dá uma gargalhada e abraça minha barriga. Volta. Fica séria. Olha para os meus olhos de leão sincero e de pau inflado. “Sefoder. Sou a porra de uma mulher”. Se ela falasse, o amor nasceria em mim. Ela não falou. Em um silêncio mágico de vidro agitando o alívio do vento alísio ela me deu sete orgasmos, um par de asas e um rabo de serpente. Ela montou em mim. Colocou a serpente ao redor do pescoço delgado, como se fosse um cachecol verde com olhos malignos de rubi, depois deu um tapa na minha anca e gritou: “Avante!”. Eu bati minhas asas de grifo. O céu nos abraçou. O céu tinha passado perfume de ameixa. “Vamos para onde?”. Sou um leão taxista das galáxias. “Me leva para onde você tem medo”. Existem várias oportunidades para o amor nascer na floresta da catarse.
Ela mordeu meu pescoço, enquanto voava.
Eu rugi.

29.11.2015
Tiago André Vargas

Fotografia de Art Shay. Reza a lenda que a modelo é Simone de Beauvoir, que, surpreendida ao tomar um banho de porta aberta, disse para o fotógrafo "vous êtes un mauvais enfant / Você é uma criança má". E continuou seu banho deixando que ele a fotografasse.

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