sábado, 2 de abril de 2016

Durame aberto



O sonho da cárie dos teus sonhos
Procura uma folha cipreste
Para pousar a modorra do mundo
Balda: só encontra o que lhe encontra
O estrondo da primeira árvore liberta
O incêndio idílico da pangeia da matéria
Rumo à verticalidade da fome do fogo
Terceiros
Anseios
De absolutamente tudo
Florescem a ciência da morte
Para os olhos de girassóis negros
Voltarem-se às trevas do nada
Piscam
Rápido
Reproduzem o som dos primeiros galhos
Buscam provar estarem vivos
Se dobram à realidade
Partem
O parto
Jazem sobre a forquilha do ventre materno
Nas raízes umbilicais a seiva se esparsa
Definitivamente rompidos
Os canais afluentes libertam o cheiro do isolamento
A ignorância da vida é uma semente
Oca
Um dente de leite
Podre
Uma árvore partida sussurrou
Pela dor na ponta das folhas
Palavras que abalariam o sedimento do mundo
Mas ela estava sozinha na floresta
Se nada disse
Ou disse tudo
Só o tronco mudo do sonho morto
Falará
02.04.2016
Tiago André Vargas


Montevideo, janeiro de 2016, foto da Andressa.



sábado, 26 de março de 2016

Escolha, consciência e a alma dilacerada – Aristóteles



Aristóteles

Passagem do livro Ética a Nicômaco, escrito em prováveis 350 anos antes de Cristo:

“Os incontinentes, que escolhem, em lugar das coisas que eles mesmos julgam boas, outras que são agradáveis mas perniciosas; enquanto outras pessoas ainda, por covardia e indolência, se esquivam de fazer o que consideram melhor para elas próprias. E os que cometeram muitos atos abomináveis e são odiados pela sua maldade esquivam-se à própria vida e destroem a si mesmos. E os maus buscam outras pessoas com quem passar os seus dias e fugir de si; pois lembram-se de muitos crimes e preveem outros semelhantes quando estão sozinhos, mas esquecem-nos quando têm companhia. E, não possuindo em si nada de louvável, não sentem nenhum amor por si mesmos. Por isso, tais homens tampouco se alegram ou sofrem consigo próprios; porquanto a sua alma é dilacerada por forças contrárias, e um dos elementos que a constituem, em razão da sua maldade, sofre quando se abstém de certos atos, enquanto a outra parte se rejubila, e uma delas o arrasta numa direção e a outra na direção contrária, como se o quisessem esquartejar”.

26.03.2016

Textos Não Tetos

sexta-feira, 18 de março de 2016

Mnêmico



Na paz
Vez por outra
Inspira-se
A contingência
Da paz

Na guerra
Vez por sempre
Expira-se
A demência
Da guerra

Na primeira
Via pulmão
O decolo
Da razão

Na segunda
Pelas mãos
O sufoco
Morte irmão

17.02.2016
Tiago André Vargas


Fotografia de Brent Stirton.


domingo, 6 de março de 2016

Papai via longe, muito longe – Louis Ferdinand Céline



Meu pai, com medo de que eu desse para ladrão, berrava como um trombone. Só porque, uma tarde, eu tinha comido todo o açúcar do açucareiro junto com Tom. Nunca se esqueceram daquilo. Ainda por cima, eu tinha outro defeito, andava sempre de bunda suja. Não me limpava direito, não tinha tempo. A minha desculpa é que a gente estava sempre com pressa… Também me lavava sempre mal, pois tinha medo dos tapas que me esperavam se eu me atrasasse e que eu queria evitar… Por isso corria… Deixava a porta do banheiro sempre aberta para perceber se havia alguém por perto… Fazia cocô como um passarinho, entre duas tempestades…
Subia aos pulos para o outro andar, não me achavam mais… Ficava com merda no cu durante semanas. Eu reparava no cheiro, não chegava muito perto das pessoas.
“É sujo como um porco no chiqueiro! Não tem respeito próprio! Nunca vai conseguir ganhar a vida! Todos os patrões que tiver vão despedi-lo logo”… Para ele, o meu futuro era uma bosta…
“Que fedor!… Não é que vamos acabar tendo que sustentá-lo!…”
Papai via longe, muito longe. Ainda repetia, insistindo em latim, “Sana… corpore sano”… Minha mãe não sabia o que responder.

Morte a Crédito, Louis Ferdinand Céline, 1951.

06.03.2016

Textos Não Tetos

Louis Ferdinand Céline

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Som e fúria



A única beleza
Tombada no cântaro
Da literatura
É o grito
Rasgado
No incontestável
Silêncio

Tiago André Vargas
17.02.2016

Pintura de John Martin

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O sol pichado no rio que parece ser mar dentro de nós



No meio do fio da madrugada uma pichação em espanhol acorda a alma latina, sonâmbula, sentada na latrina. Dá vontade de gritar com eloquência uma língua desconhecida, dá vontade de chupar com magnificência uma língua desconhecida. Depois passa. Eu passei; o muro também. Do mesmo jeito que passei por Montevidéu e tatuei o cavalo de Artigas na minha coxa. Esquerda. A tatuadora a fez enquanto olhava o Río de La Plata. Estávamos em um prédio alto, que olhava para o Río de La Plata. Já as pessoas que estavam no prédio alto olhavam para as pessoas que estavam na Rambla, e as pessoas que estavam na Rambla olhavam para o Río de La Plata acreditando que olhavam para o mar.
O Río de La Plata olhava para dentro de si. Ele via o mar.
Eu me lembro de Galeano dizer que Montevidéu é uma cidade que ainda se pode respirar, e que respirar é importante. Talvez previsse a sua morte, a complicação com o câncer de pulmão. Não é raro saber o que nos matará. O incomum, talvez, seja afastar-se pela mão da sabedoria, e não da dor. Quem parava, e olhava para o rio pensando que olhava para o mar, ou ainda, quem olhava para o rio sabendo que olhava para o rio, na verdade do fundo da água morna da cachola da existência: olhava para si. É um efeito lindo, profundo, tão metafísico quanto cortar um pimentão amarelo e nascer o dedilhado de um violão triste: olhar o horizonte. A linha do mar e do céu. A linha da pichação na parede. Uma cidade vizinha do mar, ou de um rio que parece ser mar, é um convite à reflexão, bem como os gritos da mais imparcial das imprensas (validados pela cólera da transgressão) grudados nos muros de quem não tem interesse, ou dinheiro, em novas tintas para suprimi-los. Que gritem, enquanto pensarem ter voz. Que façam ondas, enquanto pensarem ser mar.
Os poros engoliam o sol de semblante sereno, com seus oito raios agudos e oito ondulantes. Um vento forte batia na água e fazia carinho nos cabelos. E se é para ter uma alma, que ela seja assim.


Tiago André Vargas

22.01.2016


Montevidéu, janeiro de 2016.


domingo, 27 de dezembro de 2015

A busca pelo olhar presente



Desde que iniciei a transcrever uma passagem para cada livro lido, este foi o mais difícil. Édipo Rei, de Sófocles, na qualidade dramatúrgica das clássicas tragédias gregas, principia com falas enigmáticas de intensidade suprimida, conduzindo assim, lenta e sabiamente, o drama. Ao final a carne se abre, junto com a intensidade das falas e ações. É teatro, vivo, de um sangue humano que após dois milênios continua com o mesmo gosto.
Vamos à passagem:

Creonte: Direi, pois, o que me disse o deus. Ordena-nos Apolo que apaguemos a mancha que alastrou na nossa terra, que a façamos desaparecer, em lugar de a deixarmos aumentar; devemos recear que se torne inexpiável.
Édipo: E de que espécie é esse mal? Que expiação?…
Creonte: Expulsando um homem dos nossos territórios ou vingando o crime com o crime, porque é um crime que está arruinando a cidade.
Édipo: Contra que homem foi cometido o crime de que fala o oráculo?
Creonte: Senhor, foi contra Laio, outrora rei da nossa terra, antes de seres tu o chefe da cidade.
Édipo: Já ouvi falar disso; eu nunca o vi.
Creonte: O oráculo ordena claramente que sejam castigados os que assassinaram esse homem.
Édipo: Em que terra estão? Como se há-de encontrar qualquer vestígio desse crime tão antigo?
Creonte: Diz o oráculo que há vestígios na cidade. Só se encontra o que se busca; o que nos é indiferente, de nós foge.

Sobre a passagem: nada de dramaticidade. Apenas uma fala para salientar como é genioso ‘buscar’. E, caso aquilo que se busque não seja passível de ação (seja por limitação, ou por reflexão) é imprescindível, mesmo dentro da inanição, reconhecer o que gostaríamos de alcançar. Pois, se a ‘sorte’ nos visitar, só a reconheceremos como ‘sorte’ se já estivermos imbuídos com o gosto deste encontro. Sem isso, não a perceberíamos como tal. Ainda (e principalmente): após o encontro, a busca continua. A realidade nunca é estável, permanecer imutável é dar asas para a indiferença, que, foge. Muitas vezes levando consigo o que, após perdermos, não nos era dispensável. A única maneira de vencer a indiferença natural que decorre sobre o ‘achado’ é recriando o seu significado, ou então, a maneira de vê-lo (recriando a si próprio). Édipo vai dizer: “Que me importa ver, se nada me era agradável à vista?”. Nesse ponto do drama, Édipo era incapaz de atribuir qualquer significado, nada do que poderia ver conversaria com a sua existência. Para isso, mudou sua maneira de enxergar: Arrancou os próprios olhos.


27.12.2015
Tiago André Vargas

Louis Bouwmeester como Édipo, na produção alemã de "Oedipus the King"  - 1896


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