*












Entre as dobras do passado é possível encontrar uma música do Led Zeppelin que surge diferente, irreconhecível, mas, logo é reconhecida. Sinto-me velha, exausta, tanto que escrever o nome dessa banda me dá um enorme pesar, medo de ser confundida com alguém que principia a vida, receio da ingenuidade que segura a mão do entusiasmo. Meu banheiro possui mofo, eu o carrego em baldes, equilibro-os entre o lixo seletivo e o orgânico nas dobras do passado, não consigo diferenciar o presente. Em uma dessas dobras, eu falava que você foi uma das primeiras pessoas que me aplaudiu, quando toquei uma música decadente para uma platéia de oito pessoas. Eu li para você um poema de Amós Oz, você me convidou para o cinema, pois passava um filme onde a protagonista interpretava a mãe do escritor. Depois do filme, os poemas, tão tristes, entraram nas dobras do passado e retornaram ao presente, muito, muito mais tristes, eu sentia uma dor no peito que me permitia, com clareza, reconhecer o instante que perfaz o agora. E, quando saímos do pequeno cinema, junto com outras seis pessoas, eu percebi que você estava orgulhoso de me ver comovida. Queria ter a oportunidade de te dizer que esse foi o sentimento mais puro que experimentei em minha vida. Seu cabelo um pouco oleoso e o pingente do seu colar prometiam um mundo diferente. Eu disse que não sabia quanto a ele, mas que eu vivia em um país que no último ano aplicou, cada dia, um golpe. Eu li um material organizado por jovens entusiasmados que relatava metodicamente os golpes sofridos, como se a pátria tivesse um diário e desabafasse as dores injustas de um ano amargo, o laivo simbólico, a perda de alguém presente, a constatação da eterna ausência, a abertura desta imperecível fenda: ainda somos os mesmos? Apesar da minha desmotivação, ou, justamente por ela, fiz questão de mencionar esse trabalho, como lisonja aos que ainda são jovens, mas também como subterfúgio para esconder o medo de amar em um luto patriota, como, se num país tão boçal, não me dar o direito de amar fosse o meu maior protesto. Eu acho que assustei você, é algo que acontece. Disseram que vinagre ajuda a tirar o mofo, que seria melhor o de limão, mas só encontrei o de maçã. Não funcionou o de maçã, também não mais acredito que funcionará o de limão. As dobras do passado, de volta ao presente, me lembram que tudo isso ocorreu há oito anos, e, você agora está fazendo o seu doutorado em artes plásticas em algum país da Europa que apequena a minha existência. Volto a mim, estou em uma exposição, na minha frente há um manequim com cabos elétricos saindo do ventre e uma grande luz artificial em forma de galhos que partem da cabeça. Há um casal me olhando enquanto olham o manequim. Fechei os olhos e, buscando conforto, voltei para uma dobra do passado.
Se o sol se recusar a brilhar, eu continuarei amando você. A música dizia.



Tiago André Vargas
22.05.2017



*Pintura de Di Cavalcanti






*












“Estranho preconceito, contudo, que valoriza cegamente a profundidade em detrimento da superfície e que pretende que superficial significa não de vasta dimensão, mas de pouca profundidade, enquanto que profundo significa ao contrário de grande profundidade e não de fraca1 superfície. E, entretanto, um sentimento como o amor mede-se bem melhor, ao que me parece, se é que pode ser medido, pela importância de sua superfície do que pelo grau de profundidade…” – Sexta-feira ou os Limbos do Pacífico, Michel Tournier.



[1] – Talvez pouca superfície seja uma tradução melhor.



*Pintura de Valentin Serov.



*












Pensa estoicamente apontando para o coração flébil
Maneiras pelas quais um mundo sólido se desmancha no ar instrumentalista
Olha com atenção o rosto de baleias manuseadas por Camus
Questionam a vida, com suas longas caudas que também parecem
Corações agudos, justamente, por serem abertos
Gostaria de se sentir mais responsável pela morte dos jovens
Gostaria de se sentir mais responsável pela rigidez do mundo
Mas chuveiros com cloro e sapatos de animais mortos te colocam em marcha
Chega às estradas obstruídas por pneus de uma fumaça muito escura
Simbolizam que o conclave ainda não chegou ao fim e nem chegará
Quer muito abraçar os pneus
Escolher um em especial, torná-lo ninho, entrar
Incendiar como um monge, ser um mártir
Contudo sabe que as ideias não possuem a densidade dos sentimentos
Não pretende ser um vídeo no youtube
Para que em 2038 uma elegia seja escrita
Por outra moça ou rapaz, tão triste como tu
Não quer que eles sintam medo ao ver os ossos do teu corpo
Percebendo que o tempo, espécie de fogo, sempre os revela
Tampouco ódio com o comentário mais curtido
Que bom seria se todo vagabundo fizesse o mesmo
Em silêncio aproveita o generoso sol que desponta na tua cidade
Quebra duas ou três vidraças
Atiça profundos instintos na máquina de oxigenação
Cassetetes empunhados por boletos te convidam a entrar em um aquário dentro do aquário
É preso, esbofeteado e te cospem no rosto barbeado
Te chamam de filho da puta e perguntam se tem merda na cabeça
Perguntam se é um retardado, um imbecil, um estúpido
Um grande leão marinho indaga, com falso interesse, onde está sua razão
E você, que mais sabe sentir do que explanar, mais uma vez aponta para o peito
Balançam a cabeça e concluem que é um fodido
Te batem ainda mais por sinceramente gostarem de você


Tiago André Vargas
28.04.2017


* Henri Matisse






*












A arte não é espelho
É ferramenta para mudar
O mundo
Disse um poeta
Mais alto
Alguns centímetros
Mais triste
Eu

Demorei mas
Aprendi a dificuldade
De pensar
De ser uma árvore
De ser Artaud e uma árvore
De ser uma árvore cega a esticar os dedos
O encontro de vida ao virar o rosto e já ser
O encontro de morte
Com o sol
Mas ainda é mais difícil
Ainda, sim, ainda
É mais difícil amar
É preciso criar o tempo
A tempo
De desencontrá-lo
Outro tempo
Desfeito
Superado
Inexistente
A criação da invenção da inversão do tempo
Absolutamente atemporal
Absolutamente existente
Quando pudermos
Tocar
A ideia sem pensamento
O sentir e o devir
No gesto pleno de afeto
Um tempo no pensamento e então
O início de uma apoteose sem platéia
O ensaio de um dedo
A grande travessia de uma lágrima pelo deserto
Teu rosto sempre foi uma miragem
O mergulho na escuridão do olho esquerdo
Que só
Fecha

Nos abraçamos na parada de ônibus
Enquanto países entravam em guerra
Enquanto políticos ganhavam em guerra
Enquanto pessoas melhores do que nós
Escreviam o seu nome na história
Com prêmios
Louros
Glórias
E outras perfumarias
Que os cavalos passam e não reconhecem

Começamos a pensar
Nossos corpos se desmancham no interior do interior do mundo
Comprazidos pelo escarro
Do nosso amor proletário
Despertando uma morna simpatia
De um anjo antipático
Voamos rápido
Alquebrados
Coloridos
Doloridos
Dentro do nosso tempo
Dentro do nosso pensamento
Abolidos e imanentes
Refletimos o amor através da curiosidade perversa
De velarmos nossa mais profunda dor
No último dia
Das nossas vidas

Um de nós
Estará lá

Todos os cavalos que eu criei
Abismam

Tiago André Vargas

12.02.2017


* Acervo pessoal





*












00:53:21
Por dois sonhos.
00:53:25
Assisto as ondas adormecerem o sal.
00:53:40
Escorrem-me espumas e conchas.
00:00:03
Há um sorriso que o pensamento não alcança.
00:53:47
Tenho 25 anos.
00:53:53
Engravido a liberdade.





Tiago André Vargas
26.11.2013 e 15.01.2017

* Daphnis and Chloe - Marc Chagall




*















Como um homem que corta a
Corcova de um boi e se
Alimenta desta
Separação
Há algum tempo eu
Questiono a
Matéria
Qual tempo
Resta
De associação
À vida eterna
:
Juventude

A imanência flerta com
Gatos egípcios
Lambendo a podridão do meu
Corpo a
Girar
Espeto de carbono
No cemitério morno
Imarcescível
;
Infância

Em sonhos
Eu e amigos
Somos cabras
Pulando
Fogueiras
Bebendo
Água suja
Misturando-a e misturando-nos
Com leite de
Noites distantes
Escondidos atrás de uma lua em frente às névoas de sorrisos
Reconheço um
Amor recolhido
Em um cocho pequeno
Pastamos e
Apascentamos
Um conhecido sentimento
Ao abismo de uma leve
.
Promessa

A faca do tempo
Aproxima o corte
Da nuca
O fio da navalha
O olho sem pálpebra
Procura
O impressionismo
Que me beija com devoção
Desde o
Parto
Sem
Partir
Uma parte minha
Chora pelos
Lábios
Que eu pensava fazer
Parte
De algum dos mil
Eu

Amigos
Balimos
E a lâmina da morte
Ainda mais
Cega
Voa com presciência
Na direção oposta

Agora
Nenhum barulho
Será permitido

Iuvenis
Tiago André Vargas

18.12.2016

*Foto da Andressa







Teus olhos de osteoporose
Circundando
Certo óleo quente
A estourar pipocas
Próximas de pombas
E outras
Aladas tristezas
Imundícies escondidas em
Lilases lembranças
Sua barriga virou
Um relógio
Crescendo junto com
O tempo
E a cinta
Apertada dois furos além da justiça
Era a mais perfeita demonstração do teu
Medo da morte
Eu queria acreditar em algo como
O espiritismo
E afirmar com certa
Convicção
Em 2153
Que transei com você
Ao som de Bartók
Um pouco tarde demais
Um pouco cedo de menos
Dentro de um
Quem nem eu
E você
Acreditávamos
No amor
E comíamos
Pipocas
Como pombas sem asas
Olhando
As luzes de outros carros
Transpassando nossa nudez
Simbiótica
Um estouro abafado
O sol no outro dia
Iluminando uma nuvem de formato oval
Para alguma criança achar
Graça
Tiago André Vargas

30.11.2016

Fotografia encontrada aqui



Mordi suas tetas
Depois aspirei
Cão que arfa é mais cão
Assoprei
A saliva álgida no halo nacarado
Era
Um copo de vidro esquecido na sacada

O médico imaginário do prazer sorria
Com escárnio
Olhava-me como um pai morto
Minha ação o torto legado

Esta ordem categórica
Foi uma vantagem
Que eu carreguei na boca
Para lutar contra o amor das mulheres de olhos profundos
O médico disse
Menos recônditos
Menos perigosos
São os olhos das tetas
Sou alquebrado
Por natureza
Incapaz de encarar os olhos da leveza
Mordia, aspirava e assoprava os olhos das tetas
Na inocência
Que passaria despercebido pela alma

Ventou forte entre meus lábios
Evitei as conhecidas janelas
Mas rasguei as cortinas do meio
Surpreso
Notei
Mordia, aspirava e assoprava seu peito
Aberto como um livro
Exposto como um copo esquecido na chuva
Outro caminho em mesmo destino
A água que dentro de si ficava
Era a alma

Sua alma sentiu frio
Está junto com a minha
Na sacada
Enroladas em um chambre vermelho
São filhotes
A minha parece não ter boca
A sua parece não ter olhos
Ninguém sabe o que serão quando crescerem

07.09.2015

Fotografia de Alexander Bergström




Penso que tudo já foi dito
Mas não por mim
E no dia que eu te liguei às 03:33
Eu estava feliz
Pois um fanático na praça falou que vivíamos o multiverso
E eu liguei meu computador às 02:22
E joguei essa palavra no Google
Percebi que poderíamos estar juntos
Em algum verso
<<além desse>>
Passei 01:11 imaginando-o
Então te liguei
Você reconheceu meu oie
Sou um cara estranho
Nunca soube dizer oi
Você disse
Vai se fuder
E desligou o telefone
O relógio no pulso pulsou
O ponteiro dos segundos parou
Meu gato me olhava nos olhos
Pedia por comida
No rádio Dylan
Dobrei minhas antenas
Com certo remorso
Abri o pacote de Whiskas
As the present now
Will later be past
Ergui a faca na altura dos meus olhos
Vi meu rosto
Disse
Oi
Meu gato miou assustado
Não mais me reconhecia
Era um novo homem
Vivia em outro verso
Te liguei às 04:44
Você disse
Caralha meu

Tiago André Vargas

13.10.2016


Fotografia de Oana Andreea Cristurean