*












A arte não é espelho
É ferramenta para mudar
O mundo
Disse um poeta
Mais alto
Alguns centímetros
Mais triste
Eu

Demorei mas
Aprendi a dificuldade
De pensar
De ser uma árvore
De ser Artaud e uma árvore
De ser uma árvore cega a esticar os dedos
O encontro de vida ao virar o rosto e já ser
O encontro de morte
Com o sol
Mas ainda é mais difícil
Ainda, sim, ainda
É mais difícil amar
É preciso criar o tempo
A tempo
De desencontrá-lo
Outro tempo
Desfeito
Superado
Inexistente
A criação da invenção da inversão do tempo
Absolutamente atemporal
Absolutamente existente
Quando pudermos
Tocar
A ideia sem pensamento
O sentir e o devir
No gesto pleno de afeto
Um tempo no pensamento e então
O início de uma apoteose sem platéia
O ensaio de um dedo
A grande travessia de uma lágrima pelo deserto
Teu rosto sempre foi uma miragem
O mergulho na escuridão do olho esquerdo
Que só
Fecha

Nos abraçamos na parada de ônibus
Enquanto países entravam em guerra
Enquanto políticos ganhavam em guerra
Enquanto pessoas melhores do que nós
Escreviam o seu nome na história
Com prêmios
Louros
Glórias
E outras perfumarias
Que os cavalos passam e não reconhecem

Começamos a pensar
Nossos corpos se desmancham no interior do interior do mundo
Comprazidos pelo escarro
Do nosso amor proletário
Despertando uma morna simpatia
De um anjo antipático
Voamos rápido
Alquebrados
Coloridos
Doloridos
Dentro do nosso tempo
Dentro do nosso pensamento
Abolidos e imanentes
Refletimos o amor através da curiosidade perversa
De velarmos nossa mais profunda dor
No último dia
Das nossas vidas

Um de nós
Estará lá

Todos os cavalos que eu criei
Abismam

Tiago André Vargas

12.02.2017


* Acervo pessoal





*












00:53:21
Por dois sonhos.
00:53:25
Assisto as ondas adormecerem o sal.
00:53:40
Escorrem-me espumas e conchas.
00:00:03
Há um sorriso que o pensamento não alcança.
00:53:47
Tenho 25 anos.
00:53:53
Engravido a liberdade.





Tiago André Vargas
26.11.2013 e 15.01.2017

* Daphnis and Chloe - Marc Chagall




*















Como um homem que corta a
Corcova de um boi e se
Alimenta desta
Separação
Há algum tempo eu
Questiono a
Matéria
Qual tempo
Resta
De associação
À vida eterna
:
Juventude

A imanência flerta com
Gatos egípcios
Lambendo a podridão do meu
Corpo a
Girar
Espeto de carbono
No cemitério morno
Imarcescível
;
Infância

Em sonhos
Eu e amigos
Somos cabras
Pulando
Fogueiras
Bebendo
Água suja
Misturando-a e misturando-nos
Com leite de
Noites distantes
Escondidos atrás de uma lua em frente às névoas de sorrisos
Reconheço um
Amor recolhido
Em um cocho pequeno
Pastamos e
Apascentamos
Um conhecido sentimento
Ao abismo de uma leve
.
Promessa

A faca do tempo
Aproxima o corte
Da nuca
O fio da navalha
O olho sem pálpebra
Procura
O impressionismo
Que me beija com devoção
Desde o
Parto
Sem
Partir
Uma parte minha
Chora pelos
Lábios
Que eu pensava fazer
Parte
De algum dos mil
Eu

Amigos
Balimos
E a lâmina da morte
Ainda mais
Cega
Voa com presciência
Na direção oposta

Agora
Nenhum barulho
Será permitido

Iuvenis
Tiago André Vargas

18.12.2016

*Foto da Andressa







Teus olhos de osteoporose
Circundando
Certo óleo quente
A estourar pipocas
Próximas de pombas
E outras
Aladas tristezas
Imundícies escondidas em
Lilases lembranças
Sua barriga virou
Um relógio
Crescendo junto com
O tempo
E a cinta
Apertada dois furos além da justiça
Era a mais perfeita demonstração do teu
Medo da morte
Eu queria acreditar em algo como
O espiritismo
E afirmar com certa
Convicção
Em 2153
Que transei com você
Ao som de Kings of Leon
Um pouco tarde demais
Um pouco cedo de menos
Dentro de um
Quem nem eu
E você
Acreditávamos
No amor
E comíamos
Pipocas
Como pombas sem asas
Olhando
As luzes de outros carros
Transpassando nossa nudez
Simbiótica
Um estouro abafado
O sol no outro dia
Iluminando uma nuvem de formato oval
Para alguma criança achar
Graça
Tiago André Vargas

30.11.2016

Fotografia encontrada aqui



Mordi suas tetas
Depois aspirei
Cão que arfa é mais cão
Assoprei
A saliva álgida no halo nacarado
Era
Um copo de vidro esquecido na sacada

O médico imaginário do prazer sorria
Com escárnio
Olhava-me como um pai morto
Minha ação o torto legado

Esta ordem categórica
Foi uma vantagem
Que eu carreguei na boca
Para lutar contra o amor das mulheres de olhos profundos
O médico disse
Menos recônditos
Menos perigosos
São os olhos das tetas
Sou alquebrado
Por natureza
Incapaz de encarar os olhos da leveza
Mordia, aspirava e assoprava os olhos das tetas
Na inocência
Que passaria despercebido pela alma

Ventou forte entre meus lábios
Evitei as conhecidas janelas
Mas rasguei as cortinas do meio
Surpreso
Notei
Mordia, aspirava e assoprava seu peito
Aberto como um livro
Exposto como um copo esquecido na chuva
Outro caminho em mesmo destino
A água que dentro de si ficava
Era a alma

Sua alma sentiu frio
Está junto com a minha
Na sacada
Enroladas em um chambre vermelho
São filhotes
A minha parece não ter boca
A sua parece não ter olhos
Ninguém sabe o que serão quando crescerem

07.09.2015

Fotografia de Alexander Bergström




Penso que tudo já foi dito
Mas não por mim
E no dia que eu te liguei às 03:33
Eu estava feliz
Pois um fanático na praça falou que vivíamos o multiverso
E eu liguei meu computador às 02:22
E joguei essa palavra no Google
Percebi que poderíamos estar juntos
Em algum verso
<<além desse>>
Passei 01:11 imaginando-o
Então te liguei
Você reconheceu meu oie
Sou um cara estranho
Nunca soube dizer oi
Você disse
Vai se fuder
E desligou o telefone
O relógio no pulso pulsou
O ponteiro dos segundos parou
Meu gato me olhava nos olhos
Pedia por comida
No rádio Dylan
Dobrei minhas antenas
Com certo remorso
Abri o pacote de Whiskas
As the present now
Will later be past
Ergui a faca na altura dos meus olhos
Vi meu rosto
Disse
Oi
Meu gato miou assustado
Não mais me reconhecia
Era um novo homem
Vivia em outro verso
Te liguei às 04:44
Você disse
Caralha meu

Tiago André Vargas

13.10.2016


Fotografia de Oana Andreea Cristurean



Concordamos com o moicano
Da Cássia

Pensamos a ampulheta da nossa vida
Da maneira como um gato espreita um pássaro
Ou o homem toca um avião

Não sabemos se a areia passou da metade
“A metade importa” – Mia a Mima

Viramos alguns cartazes
Abrimos cinco ou seis malas
Acreditamos que pessoas morreram em 74
Algumas incólumes
Protegidas como pétalas
Do amor capaz de transpassá-las

Os jornais apodrecem
O silêncio
Todos os dias

Solitária
Você embrulhou um pedaço de bolo em um guardanapo branco
Sentou sobre o capô de algum desejo inexplorado
E viu um par de asas metálicas esconderem o sol
Bem como teu sorriso arqueado faz com a tristeza

Solúvel atmosfera
Toca o próprio seio
Venta toda deliquescência
Desembarca um carinho ensimesmado

Suspira

O pouso em si exigirá pistas maiores
Que esses parvos homens repavimentados
Jamais poderão suportar

~

Eu olho para uma estrela
Nossas digitais esmagam um cílio
Faz um desejo
Eu te espero
Vem

19.09.2016
Tiago André Vargas


Imagem de Hengki Koentjoro



Neurastênico eu seu único filho vingado no junco
Transcrevendo com langor a história dos maias
Movendo as páginas da enciclopédia do absurdo
Sua irmã sorrindo no banco de trás uma dor abstrata

Eu tiro uma cópia para você talvez ainda meu anjo
Meus tentáculos olhando para o chão a triste limpeza não reconhecem
O grampo caindo do cabelo de Hebe é sujo e levita no antro
As encostas rochosas do teu umbigo pesadelos amarelos estabelecem

Sempre
As forças angulosas dos teus dentes apontavam o fim do arrebol
Minha inocência invertia para dentro um farol
Impedindo o naufrágio do prazer na confusão induzida e ausente

Põem para fora a cheia noite eu quero pô-la na boca para despencá-la em curvas dores animais
Ainda é dia eu digo depois da meia noite a não noite ainda é dia eu digo e as estrelas não se tocam jamais

Tiago André Vargas

13/08/2016

Les Seins aux fleurs rouges - Paul Gauguin