Sem cordão

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Hoje é o último dia. Hoje é a despedida, mas ninguém está com suas roupas preferidas. Hoje voltaremos a sermos aquilo que sempre fomos, seres prontos. Acabou a formação. Acabaram as desculpas de deformação. Eu sei que dói.
Por que ninguém abraça aquela mulher enquanto ela chora?
E porque ninguém chora enquanto eu tenho braços para consolar?
Casa. Solitário de volta para casa. De volta para o útero financiado. Ainda assim estamos em casa, ainda assim temos um conforto... Ainda assim esperamos uma nova vida. Trocamos de barriga, trocamos de mãe, mas ainda esperamos da mesma forma pela vida.
Saímos para fazer algo, aliviamos alguma tensão, compramos alguma esperança mas no fim do dia, quando a noite cai e o mundo aflora, para o útero voltamos.
Mas hoje é o dia da despedida. Uma tesoura com ponta velha um dia há de cortar este cordão que nossa mente insiste em dizer que há e nos perdermos a fora através do dia, através da noite. Caminharemos com as próprias pernas fodendo o julgamento dos outros com força e sem compaixão. Sem cordão. Sem limite. Até doer nossas pernas e nos obrigarmos a ficar por ali. Por ali, não aqui.



Autoria de Tiago André Vargas
Foto encontrada aqui.

Tiago André Vargas

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Pesadelo de camaleão é que tem só uma cor.

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