Inventário de uma sombra pela herança do tempo

by 22:38:00 2 comentários


O tempo é uma lobotomia constante para suportarmos o tempo.
Lorca viajando para Madrid ainda é um sino na minha mente. O poeta mente. É o que pensa quem não consegue ninar o amor enquanto mina sua essência mais nobre no dente afastado ao vestir-se de luto para atravessar um milharal e, escondido no sabugo, alguém ama a menina até descobrir sua vileza. Fica nos pés apenas a coceira fomentada pela solidão, remédio sim, remédio não.
Na meninice meu mundo estava no segundo andar de um pé de goiabeira. Meus pés já eram tortos, apesar da ausência do pruído, e a casca lisa do tronco sempre me acolheu meio amante, meio filho. Em estulta adultícia achei que o amor ficava em alguma parte do nada que o vento sacode, árvore frutífera que raio não tem ímpeto de tocar na mesma ojeriza do olhar atravessar a fruta caída pelo pecado de reviver quem requestou ninho em nosso sozinho e agora é só um moído puído de baixo da unha que raspa o cabelo na procura do sentimento que nunca esteve lá.
Amores morrem de cabeça para baixo nos galhos do passado, secos no asco de nunca despencar e sumir. Leia novamente, eu disse passado. O tempo é lobotomia. Paixão é fogo em pau velho, depois nada sobra, exceto nascer de amor, se houver amor é semente de bergamota cuspida para cima.
Para cima.
Meus pés tortos querem ir para cima.
Há uma goiabeira de olhos grandes lá em cima. Nada além eu conheço, mas me conheço no curioso piado de coruja descobrindo o que está encoberto pelo não acontecer.
Se for, morrerei.
Finado por ausência.
Meu inventário é tão raso quanto um vidro quebrado: Sombra da nuvem para você lembrar que vivo, sentindo mais perto de si outra companhia já que a ausência está nestas palavras de janela sem vista, só existe a provocação do instante e você lembra que no peito há alguém do outro lado.
Se a nuvem carregar chuva, sou eu.

Tiago André Vargas

20.01.2014

Pintura de asahinoboru

Tiago André Vargas

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Pesadelo de camaleão é que tem só uma cor.

2 comentários:

  1. Talvez tenha sido tu o anarquista, prefiro assim:

    Fica nos pés apenas a coceira
    fomentada pela solidão,
    remédio sim, remédio não.

    Em estulta adultícia achei
    o amor ficava em alguma parte
    do nada que o vento sacode
    a fruta caída pelo pecado

    Reviver quem requestou ninho
    em nosso sozinho e agora
    é só um moído puído

    Amores morrem de cabeça
    para baixo nos galhos do passado.

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  2. e
    o vento
    que
    carrega a nuvem
    sou eu.

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