sexta-feira, 12 de outubro de 2012
quarta-feira, 3 de outubro de 2012
domingo, 23 de setembro de 2012
Mil quatrocentas e trinta e três músicas de amor
Depois
de andar com moscovitas, babar na barba de certo carioca de mente tristonha e
aguçada, quase adoçada pela poesia da vida, seria conveniente esquentar a minha
chaleira que não assovia e beber mais um chá de frutas silvestres que tanto se
assemelham a veneno de rato.
Minha
bebida, talvez. Não, eu já as tenho em demasia.
Desculpe
a inexatidão, mas eu não consigo beijar sem antes provocar um sorriso, ou no
mínimo, uma dúvida.
Sim,
música.
Um
pensamento me ocorreu agora, enquanto esfrego minha língua no lábio queimado,
recorde-se, minha chaleira não assovia e eu não escuto, tampouco atento, sempre
viro os resquícios não evaporados na xícara que queimam para valer.
Como
um beijo sem sorriso.
Ou
uma música desperdiçada.
Voltando
ao pensamento: A arte se gasta? Desgasta? Evapora?
Sim.
Exatamente
sim. Uniforme ao nosso estado de espírito. Da mesma forma que você agora desgosta o sorvete de morango, desiste de tocar piano, desaprende a chorar sozinho sobre
quatorze polegadas, concebe seu amor como algo findado em estado vegetativo.
Então
você a beija de maneira botânica.
Com
delicadeza, suavidade e antipatia. Uma bela música toca, é verdade, mas
é um belo som desperdiçado. Um amor silencioso que precisa de uma trilha e
assim, tornar-se-á um amor suportável, corrijo-me, suportável.
Eu
conheci alguém que me fez querer beijá-la entre gritos suaves e graves sorrisos.
Com
música e sem música, mas, com música.
De
olhos fechados, talvez girando alguns quartos, com o coração ribombado por ela,
pelo sonido, pelos afagos e principalmente, pelo sentimento que transcendia as
paredes do meu corpo e os olhos das sentinelas do tempo.
Eu
percebi que precisava beijar aquela mulher ao som de todas as músicas e de
maneira metódica, gênero a gênero, banda a banda, disco a disco, música a música.
Genuinamente incentivava os compositores a beberem café, chás de rato, mas não
cocaína, precisava de produção! Queria mais músicas, necessitava de mais músicas
para beijar aquela mulher, entre um sonho musical e labioso as três da
madrugada me amedrontava a possibilidade de findarem-se todas as músicas e necessitar-iria
beijar aquela mulher em silêncio.
Talvez
sem música eu perdesse o encanto, ela o perdesse, eu me tornaria uma planta,
quem sabe ela.
Desperdiçado
o nosso amor. Corrijo-me, desperdiçado o nosso.
Seria
a completa ruína.
Haveria
mil quatrocentas e trinta e três músicas completamente destruídas pelo seu
fantasma cavalgando pelo tempo através do passado, enfiand0-se dentro dos
rádios e alto-falantes, putrefazendo qualquer melodia de amor que por eles
poderia ser influída.
Cala
a boca, você me disse.
Colocando
o indicador sobre o meu lábio queimado pelo chá beijou-me em silêncio.
Eu
fiquei em paz.
Havia ainda tantas
músicas, havia ainda você.
Autoria de Tiago André Vargas
Fotografia de Lea.
sábado, 15 de setembro de 2012
Seja o que for seja rápido
Parece
que tudo isto está pronto agora, enquanto confiro o comprimento das minhas
unhas, tortas, como lascas de madeiras subadjacentes nas arestas de uma porta
sempre aberta.
Porém
nunca é rápido o bastante.
Nem
os gnus, nem as árvores empíricas que caem sozinhas, tampouco o movimento gravitacional
de um abraço cortado pelos dias da semana.
É
tudo tão lento.
Quando
sorrimos sozinhos ou choramos em comunhão, sempre moroso, como uma voz emanada
de algum ponto longínquo através de um cano sujo, tão distante e distorcida,
não podemos bater os pés de uma maneira feliz.
Ou
fugir.
Não
saberíamos como e mesmo que, não queremos, justamente pelo inconcebível que
jamais será almejado pois querer é primariamente saber.
Tudo
tão lento, vertiginoso, seguimos mas a vida não mais parece nos acompanhar,
deixá-la então para trás? Se isto for uma súplica suicida não se preocupe, eu
carrego um 0800 sempre comigo, junto com meu telefone sem crédito, no meu bolso
sem forro, ao redor da minha perna tão viva que carrega todo este tronco pouco
musgoso numa espécie de trono, mas sempre, eu digo incansavelmente, tão lento.
Lento
demais.
Lento
o bastante.
O
suficiente para que ISTO alcance tudo.
ISTO
que eu e você agora sentimos.
Mas,
às vezes dobramos alguma esquina e tudo parece ficar bem, uma fuga perfeita.
Não tarda a linha retilínea, o medo, agonia, a busca por outra esquina. Se você ligar, ninguém vai atender. Não há créditos.
Continue
em movimento.
Seja
o que for, seja rápido.
Autoria de Tiago André Vargas
Fotografia de Nikos Koutoulas.
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Mariposas no Útero - Capa e informações descartáveis
E
agora, o livro não somente tem uma capa, mas tornou-se um livro. Seja lá o que
isso for, é algo palpável, não em minhas mãos, mas nos meus binários sonhos.
Sem contar que existe um inseto pegajoso em sua fronte que por mim não fora
escolhido, mas dado, como um filho, desde sempre amado.
O
intemporal “em breve” está agora mais breve.
Tão
próximo que me é possível algum ar de liberdade, uma desvirtuada sensação de
cumplicidade pela dor e o prazer que tive em escrever este livro, em breve, tão
breve, compartilhada nestes mesmos olhos que agora correm letra por letra
produzindo infinitos significados para esta mensagem destemperada, cheia de
publicitárias promessas eleitorais de alguém que não busca se eleger.
Talvez
renunciar.
Na
verdade, voar.
No
escuro.
Sem
ser visto, apenas sentido, leve e pungente como um bater de asas na sincera
ausência das cores.
Mas,
eu falhei.
Acabei
sendo intenso e repulsivo como um beijo de cólera.
Mais informações. Em.
Breve.
Tiago André Vargas
![]() |
| Capa do livro Mariposas no Útero - Tiago André Vargas - Editora Multifoco |
sábado, 1 de setembro de 2012
Aponta-dor quebrado
De
alguma forma desaponto
Não
é meu êxito ou fracasso
É
a expectativa fulgurante germinando em luz contrária
Minha
sombra
Meu
escombro
Meu
escoro
Eu
escorro
Para
as quinas, os rodapés, as caneletas e o teu umbigo
Fujo
dos olhos
Dos
teus e dos meus
Dos
seus e dos nossos
De
alguma forma eu me desaponto
Enquanto
aponto todos a minha volta
Afiados
Prontos
para a tão aclamada guerra
Cuja
qual não mais acredito
Meu
gatilho
Este
dispara flores
Mas
eu torço minha cara
Fingindo
uma constante última bala
Desapontada
mas apontada
Entre
os olhos do inimigo
Igualmente
desapontado
Sem
sombra
Sem
escoro
Não
mais escorro
Os
olhos se fecham
Ninguém
puxará o gatilho
Todos
estão desapontados e tão bem apontados
Não
podem abrir as mãos
Estas
carregam suas cascas, a côdea de madeira ou o próprio brio da vida
Não
é possível um cumprimento
Um
carinho
Dois
carinhos
Nem
mesmo um puxar de gatilho
Punhos
fechados
Compulsório
apontar
Para
os erros de outrem
Para
o próprio vigoroso lápis
Afiado
como uma esgrima
Perfeito
para a caligrafia
Porém
Não
há nada a ser escrito
E
se escrevo
Não
tenho êxito ou fracasso
Agradeçam
ou não
Meu fatídico apontador
quebrado
Autoria de Tiago André Vargas
Imagem de Xeno.
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