Março sem tinta

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Era como em março transcrever um rascunho
Tirar letras repudiadas de um papel sujo
Pô-las em folha límpida durante o interlúnio
E na lua nova constatar o infortúnio

Somente um homem lia seus feitos
Preferia a reclusa, era o seu jeito
Mas este o fazia com devoto almejo
Acompanhando a própria mão no tracejo

Feliz assim o era, sozinho em companhia de si
Alguns diziam que era impossível viver assim
Alguns apenas roubavam o que crescia em seu jardim
Mas a maioria não sabia que alguém morava ali

Mas que tristeza alvejou o velho poeta de letra torta
Quando o mês de março sem tinta bateu-lhe a porta
E o contínuo escritor parecia ter a mente morta
Como uma faca velha que ninguém ousa jogar fora
Mas que ninguém escolhe pois nada mais corta

E durante o mês de março sem tinta
O velho escritor por fim nada mais tinha
Pois na exatidão de quem nada escrevia
Residia também o leitor que nada mais lia

E assim ficou, na mórbida batalha de quem nada espera
Até que em tarde cor de sépia, próximo à janela
De pronto suas mãos obedeceram à tormenta ideia
De espiar o que há tanto tempo, indiferente, lhe cerca

O mundo não era diferente e nem poderia
Na calçada de mangueira empunhada a mesma vizinha
Nos garotos com a bola sem gomos a mesma alegria
O cão deitado ao sol causando a mesma empatia

Indiferente e sem pressa a janela fechou
O papel judiado pela caneta sem tinta amassou
E na folha virgem novamente se encontrou
Mas o que será que na mesma ele escrevia?

Atravessaria dias de sol cheio e noites de dilúvio
Olharia nos olhos de mulheres sem causar repúdio
Teria 22 anos e um futuro moribundo
Seria o dono do cão que tanto brilha no sol vagabundo

Escreva velho poeta, não importa qual o gosto
Escreva vendo, ou não, outros rostos
Mergulhe fundo a mão dentro deste poço
E busque algo que seja desprezado e precioso

Autoria de Tiago André Vargas


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Tiago André Vargas

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Pesadelo de camaleão é que tem só uma cor.

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