Bem no meio do seu medo

by 18:48:00 2 comentários




Aos quatorze recebeu um caderno de recordação. Perguntas enumeradas e respostas compartilhadas. Sempre é imprudência escrever algo seu a quem não é teu.
Não temos ninguém, nem o Sipróprio.
Ela parou naquela pergunta. Pergunta quatorze. Leu as respostas anteriores.
14. Em que lugar você deseja encontrar o seu amor?
A. pulou aquela pergunta.
A. não gostava de pular perguntas.

N. sentado aos fundos olhando para a porta. O café seco no fundo da xícara é a curva de um rio lamacento que carrega o tempo e com ele um conselho absconso. N. gostava de olhar para portas. Portas são pessoas. Pessoas, dentre tantas coisas, esperança. N. gostava de olhar para a esperança.
A porta se abriu.
Um velho casaco roxo junto com o guarda-chuva reluzente e as botas pretas e os jeans surrados e o cabelo molhado carregavam uma mulher. O rosto dela oferecia tamanha ataraxia que N. tocou a xícara pois necessitava segurar-se em algo. Apesar da pele morena, estava pálida. Uma mulher foi abraçá-la. No abraço, ela olhou para N. sobre os ombros de quem a consolava. Grandes olhos, N. pensou. Além. Olhos famulentos. N. sorriu e ao perceber, sorria para ela. No findar do abraço ela caminhou em sua direção desfazendo-se do guarda-chuva e do casaco.
- Não me desaponte – Ela disse.
- Então não fale comigo – N. disse.
Ela sorriu olhando para baixo. N. poderia facilmente amar uma mulher que sorrisse olhando para baixo.
- Qual é o seu nome? – N. perguntou.
- A.
- E se pudesse escolher seu nome?
- Eu posso escolher meu nome.
- E então?
- V. e você?
- Meu nome ou se eu pudesse escolher?
- Seu nome.
- N.
- E se pudesse escolher?
- N.
- Você parece feliz.
- Parece cocaína, mas é só tristeza. Minha felicidade é uma paráfrase da felicidade de outra pessoa.
A. fez um gesto para a garçonete pedindo dois cafés.
- Tristeza?
- Tristeza. Parecida com a sua.
- Minha tristeza vem de alguma esperança.
- Você é mais que uma porta, A.
- Por que não me chama de V.?
- Prefiro o que você é, não o que gostaria de ser.
- Sou uma mulher de vinte e oito anos que há quatorze anos não sabia responder a pergunta quatorze de um questionário infantil. Hoje – agradeceu a garçonete que lhe trazia o café – por estar segurando um café nas mãos e ter você nos olhos, diria que sempre desejei conhecer o amor da minha vida em uma cafeteria.
- Clichê. Intelectualmente mórbido clichê. E lindo.
A. sorriu.
- Preciso admitir que sempre desejei uma mulher que entrasse na minha vida com seu guarda-chuva molhado sem pedir licença, o embalo das palavras escorregadias e brutalmente sinceras como as voltas dos teus cabelos.
- Acho que amo você.
- Desde quando?
- Desde agora.
- Acabei de ver um filme, saltou no meu colo a seguinte frase: “Nada distancia as pessoas mais do que amor e sexo. Porquê isso acontece, eu nunca compreendi”.
- Eu acho que amo você – insistiu A.
- A., você merece algo melhor que o amor.
- Um beijo?
- Beijo é sexo sem x.
- O que me dará então?
- Nada. O que pode ser tudo.
- Faça um filho comigo e depois me deixe. Eu quero algo seu para sempre.
- Tenho medo A..
- Você não parece ter medo.
- Meu medo de ter medo não me deixa ter medo.
- Você precisa ter medo, mais do que amor.
- Fala isso novamente.
- Não.
- Eu preciso.
- Você precisa ter medo, mais do que amor.
N. certificou-se que as xícaras estavam vazias e virou a mesa jogando seu corpo sobre A.. Caíram sobre muitas coisas, inclusive o amor.
N. trapaceava beijando A. com os olhos abertos. Necessário notar, ver. Homens gostam de ver. O cabelo ondulado sobre a porcelana quebrada, a toalha amarela no chão, podia sentir o olhar de reprovação e medo dos demais sobre suas costas enquanto A. alisava-as com seus dedos sem esmalte.

A. terminou de responder o caderno de recordação e voltou para a questão quatorze. A. não gostava de pular perguntas.
14. Em que lugar você deseja encontrar o seu amor?
A. abaixou sua cabeça e sorriu.
No medo.

Tiago André Vargas


Imagem de Kassy.

Tiago André Vargas

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Pesadelo de camaleão é que tem só uma cor.

2 comentários:

  1. Clichê. Intelectualmente mórbido clichê. E lindo.

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    1. Talvez este conto vire um curta Tamires! Há um projeto interessado. Eu gosto deste diálogo, acho que ficaria interessante. Obrigado por acompanhar, tudo de bom para você sempre.

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