Por trás das Câmeras

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Foda-se.


POR TRÁS DAS CÂMERAS

CAPÍTULO 1 – Nos bastidores

Johnnie Walker. Vocês sabem por que as garrafas do uísque Johnnie Walker são quadradas? Simples, dessa forma o atrito delas era menor durante viagens marítimas pois as mesmas eram armazenadas uma ao lado da outra e ainda era ganho maior área para transporte, logística pura eu diria, mas não hoje. Hoje eu deixo minha sensatez de lado, ainda mais depois de ter secado essa garrafa de Johnnie Walker sozinho, e assim crio minha versão: A garrafa de Johnnie Walker foi feita quadrada para que Michel Bastos sinta mais dor quando eu enfiar ela inteira no seu rabo. E eu quero muito que Michel Bastos sinta dor. Você também quer... Não é mesmo Johnnie? Quer entrar na bundinha dele né? Eu sei que sim.
Trabalhamos juntos, sempre. Não juntos, mas no mesmo lugar... O canal de TV 4, PNTV. Tínhamos a mesma idade e o mesmo trabalho quando entramos na rede: Auxiliar geral, estagiário. Entrando dessa forma na emissora você pode ser qualquer coisa desde dono até câmera.
Por incrível que pareça tínhamos as mesmas pretensões, ser um dia apresentador de um programa de entretenimento, porém Michel Bastos sempre teve uma espécie de holofote pelo seu carisma, mesmo quando estagiário muitas vezes era o centro das atenções. Para mim restavam sempre as migalhas... O papel do cara sério trabalhador. O tempo passou, muito lentamente para mim e rápido demais para Michel Bastos. Fui ganhando lugar lentamente pelo campo da burocracia e depois subindo através do meu trabalho árduo e perfeccionista na área técnica, aparecendo para resolver problemas que ninguém queria ou conseguia resolver. As pessoas só davam valor para meu trabalho (áudio, iluminação, etc.) Quando algo desse errado, então eu surgia e resolvia, ficava com os créditos e os tapinhas nas costas. Depois de resolver muitos problemas eu cheguei no meu ápice profissional: Hoje eu sou o cara que escolhe as câmeras que aparecem no ar e aperta os botões de sons animados. Não é lá grandes coisas e existe um nome específico para isso, mas eu prefiro referir meu trabalho dessa forma “O cara que escolhe a filmagem e os sons”. Já meu inimigo e do Johnnie, Michel Bastos, simplesmente comeu a moça do tempo. Esta foi sua galgada profissional. Este único e simples fato isolado levou Michel Bastos a ser um dos apresentadores de televisão mais conhecidos do Brasil. Vou explicar melhor. Depois de ser efetivado foi ajudante geral de um programa de culinária, escolhido porque as mulheres, maioria naquele departamento, o queriam trabalhando para elas. Michel Bastos sempre teve uma lábia enorme com as mulheres, somado isso com sua boa pinta e a confiança implacável contida naqueles olhos azuis como o céu sua fama crescia mais rápida que qualquer audiência de nossos programas. Não demorou muito e a nossa bela morena da previsão do tempo caiu nas suas graças, o que não era muito de se surpreender, tendo em vista que era bastante ingênua e foi contratada simplesmente por ter grandes seios (naturais) que ficavam espetaculares quando a mesma apontava o clima da região Nordeste, de perfil é lógico. Como diz o chefe do telejornal: “Previsão de tempo é para os velhos. As mulheres normais invejam a apresentadora enquanto os homens babam, é para isso que a previsão do tempo serve. É como a bela mulher que passa no ringue do boxe depois de cada assalto... É para tirar a tensão da coisa toda... No nosso caso dos estupros, corrupção, enchentes... Entende?” Faz sentido. Então Michel Bastos deve ter conversado com ela por algumas semanas, seduzido ela no trabalho com alguns flertes durante o café, ter falado alguma obscenidade para ela antes da mesma entrar no ar... E ela vermelinha sem jeito dizendo para ele antes das câmeras filmarem “Tu me paga Michel...” Aquele joguinho de sedução. Um dia ele entrou no camarim da moça e a abordou ainda com as roupas executivas da apresentação do tempo, exatamente de acordo com seu fetiche. Não perdeu tempo, pois o proibido sempre exige objetividade e então enquanto ela estava de bruços escorada sobre a mesa, com sua saia preta erguida e amontoada na altura da cintura fina e Michel lhe penetrava fundo puxando firmemente seu cabelo cheirando a laquê a porta se abriu e nela surgia a figura de Dorete. Um nome estranho para uma mulher poderosa, viúva e herdeira da emissora. Ela administrava a companhia com punho de aço e fez seus lucros subirem de forma expressiva. Muitos tinham medo dela, a chamavam de bruxa pelas costas e tinham medo de perder seus empregos pelo incrível faro que ela possuía de notar incompetentes. Baixinha e de cabelos ruivos encaracolados, maquiagem carregada, sempre com seus trajes combinando e jóias extravagantes ela era um símbolo interno para a emissora, tal como o palhaço do Mac Donald’s, impossível de ser confundido.
Michel! O jovem promissor! O belo e desinibido rapaz! Ele olhava para Dorete com cara de espanto tentando demonstrar respeito pela sua poderosa chefe e ainda com seu pênis dentro da moça dando pequenas latejadas, disse para ela que poderia explicar tudo e... Silêncio. Dorete colocou seu indicador sobre os lábios rachados da velhice, lacunas do tempo preenchidas por camadas exageradas de batom e pediu silêncio. Fechou a porta do camarim trancando com duas voltas pausadas. Sentou-se na cadeira mais próxima e como um fã na primeira fila cruzou as pernas e disse para ambos:

- Continuem.

O que aconteceu depois é lenda. O próprio fato é uma lenda e ninguém sabe realmente se aconteceu. Mas é plausível, tendo em vista que de uma hora para outra Michel virou o queridinho de Dorete, era comum ver aquela velha senhora apertando sua bochecha nos corredores da emissora e enquanto ela as apertava ele ficava constrangido, evidentemente, porém ela lhe fitava profundamente nos olhos, como se tivesse um segredo com ele... Talvez ele teve que satisfazer aquela velha viúva... E ela gostava de ter esse contato físico na frente de todos como se enquanto apertasse seu rosto pensasse: “Esse pedaço de carne já foi todinho meu”. Mas é possível que nada tenha acontecido entre os dois e ela lhe apertasse o rosto pensado: “Quanto dinheiro essa marionete está me dando!”. Independente, Michel estava por cima, ele era o cara do momento na emissora, somente porque Dorete assim queria.
Toda noite, nos últimos 8 meses, eu tenho que ficar na cabine de áudio e imagem e enquanto me conforto na cadeira posicionada na frente de inúmeras telas, Michel Bastos está combinando com alguma dançarina de pele bronzeada de darem uma rapidinha depois do programa. Quando eu dava o comando da voz gravada: “Boa noite Brasil! Agora com vocês ele... Michel Bastos!” Eu sentia uma dor no estômago... E eu ouvia isso todo dia enquanto o galo pimpão entrava no palco com sua crista úmida de gel importado. Eu olhava Michel Bastos em 6 telas diferentes e escolhia aquela que ele aparecia melhor. Ele pedia um “close” na câmera 5, eu escolhia a câmera 5. Eu prestava toda atenção nele todos os dias, meu trabalho era prestar a atenção nele e no entanto aquele verme passaria por mim e não me reconheceria. Ele tinha uma personal stylist e eu estou numa cabine de comando com um suéter que minha mãe me deu a 2 anos atrás no natal... Um suéter verde com um alce branco bordado. Dou outro comando e a voz mecânica sai dos auto-falantes assobiando para Michel Bastos. Ele para surpreso como se alguém tivesse assobiado para ele... Se dirige para uma loira linda sentada na primeira fila e diz para ela:

- Foi você quem assobiou?

Penso comigo que na verdade fui eu. Náuseas novamente. A loira safada com sua boca vulgar grita transtornada:

- Foi sim Michel eu te amo!

Eu penso comigo se aquilo foi combinado... Acredito que não. Sempre foi assim... Ele no palco e eu nos bastidores.
                                                       
CAPÍTULO 2 – Amor, a pólvora pro fogo

Dois meses atrás finalmente aconteceu uma coisa boa comigo. Num desses telefonemas longos que eu troco com minha querida mãe, ela me aconselhou a fazer alguma atividade física. Disse que eu estava ficando muito gordo e brincando, eu disse que a culpa era dela e de suas deliciosas lasanhas que comia no final de semana quando ia visitá-la, mas ela estava certa. Me lembro bem de sua voz dizendo “Meu filho, aproveita para melhorar sua saúde e fazer novos amigos, quem sabe você não encontra uma namorada na academia! Aquelas moças geralmente são tão bonitas!”. Como eu adoro minha mãe. Sabe bem como erguer minha auto-estima.
Sou um desses caras que não tem vida fora do trabalho. Quando eu me mudei para esta cidade a trabalho eu deixei meus amigos na mudança, por ser tímido e apenas trabalhar aqui, acabei não fazendo novos amigos... E bem eu não fazia mais nada. Virei um escravo da vida solitária e assim me arrastava durante a semana, focado apenas no trabalho. Na sexta ainda de noite eu largo tudo e vou visitar minha mãe na nossa cidade natal que fica a poucos quilômetros da PNTV, e somente lá eu encontro meus amigos... Eventualmente faço alguma festa... E assim a vida ia passando. 34 anos e nada feito que me orgulhe, mesmo sem saber, isso iria mudar de uma forma perversa.
Ao desligar o telefone a idéia da academia me motivou muito, a ponto de ir até o espelho e tirar a camisa. Eu como sempre... Um pouco mais gordo e peludo é verdade, mas inquestionavelmente, eu. O mesmo sorriso tímido e simpático de sempre. Aquele sorriso de felicidade em ter chegado em quarto lugar numa corrida de 5 competidores. Irrevogavelmente eu.
A estética nunca me preocupou muito mas ficar gordo não era algo que eu gostaria, porém o fato de encontrar alguém... Isso sim realmente mexeu com meus desejos criando uma motivação genuína. Ainda sem camisa o playlist do computador toca aleatoriamente uma música dos Beatles, um conselho de amigo dado pelo acaso “All you need is love... Love is all you need”. Sorrio para mim mesmo diante do espelho.
Uma semana depois estava matriculado com uma camisa preta (para esconder as banhas de aspirante a gordo) e tênis de caminhada. Eu na academia! Mamãe estava orgulhosa. Eu estava orgulhoso! Entrei tímido na academia e escutei aquela batida frenética saindo dos auto-falantes e antes de poder pensar em qualquer coisa ela surgiu. No meu trabalho eu nunca me senti a vontade para ser um cara espontâneo... Como eu entrei na empresa muito novo e verdadeiramente tímido, acredito que as pessoas não esperavam nada de mim além do silêncio envergonhado. Elas tinham uma imagem criada de mim e eu raramente conseguia dar algo além do meu sorriso simpático de 4 lugar ou uma indireta inofensiva e razoavelmente inteligente. Fora do meu trabalho eu agia de forma diferente mas nada comparado com o meu comportamento em relação a Luísa, realmente não parecia nada comigo:

- Muito boa tarde, serei sua instrutora nas primeiras aulas! Você é o aluno novo... André, certo? Eu me chamo Luísa.
- Desculpa a música ta meio alta... Seu nome é Letícia?
- Não, é Luísa.
- Luísa... Você é linda.

Fiquei pasmo. Idiota! Aspirante de gordo idiota! Como que eu poderia ter falado isso para ela! Incrivelmente, saiu tão natural e sincero que ela pareceu ter gostado. Vocês já ouviram falar sobre a técnica dos 3 segundos? Bem, deixe isso para lá.

- André... Muito obrigada pelo elogio... Eu nem...
- Não. Você não precisa e não deve falar nada. Ser espontâneo e sincero pode causar embaraço, mas gostaria que você soubesse disso. Em qual aparelho podemos começar? Estou animado!

Esse fui eu? Acredito que ter saído dessa situação embaraçosa foi para mim equivalente a 8 horas de academia! Queimei tantas calorias que estava pronto para voltar para casa e comer uma pizza.
Com este fato isolado onde não agi necessariamente de acordo com minha personalidade, Luísa ficou curiosa a meu respeito e dentro das limitações profissionais, ela gostava de interagir comigo. Ir para a academia era o momento mais aguardado do dia... Quando ela acompanhava outra pessoa eu a observava sem que me percebesse. Seus traços delicados... A fisionomia italiana com uma leveza que não condizia com algo já visto... Desde os pequenos detalhes, onde sua sobrancelha aparada perfeitamente delineava seu rosto numa perfeita harmonia... Os olhos castanhos, quase negros... E o nariz diferente. O nariz que me fazia sorrir quando eu me lembrava. Seu nariz era um marco único e visto de perfil você tinha uma curva perfeita, lembrando uma lua crescente que se formava e sua extremidade levemente arrebitada para cima era quebrada de qualquer prepotência assim que seus lábios finos se afastavam e demonstravam seu afetuoso sorriso.
Muito conversamos durante as aulas, papeávamos o tempo todo inclusive enquanto ela estava acompanhando outro aluno. Alguns se incomodavam, outros participavam da conversa, mas de fato nós não conseguíamos ficar perto um do outro em silêncio.
Após receber alguns indícios concretos de interesse de sua parte (basicamente sorrisos largos e deliciosos seguidos de gargalhadas contidas) eu aguardava o momento de lhe convidar para tomar um café ou fazer algo do gênero, ter um encontro. Num belo dia enquanto erguia alteres com o braço estendido partindo da lateral da minha coxa até o alto de minha cabeça, Luísa veio até mim me corrigindo. Pediu para que eu ficasse nas suas costas e observasse os seus movimentos. Fitei desde seu calcanhar percorrendo todo seu corpo de costas até chegar na nunca, no cerne dos cabelos emaranhados onde brotava seu longo rabo de cavalo. Eu travei minha visão e me aproximei.

- Entendeu o movimento André?

Aquele mesmo ser que me possuiu a primeira vez voltou a alojar-se no meu corpo. Aquele ser auto-confiante e conquistador que com certeza não sou eu, uma parte de mim que agia incontrolavelmente para meu bem maior na busca de um futuro feliz. No pé do seu delicado ouvido esquerdo eu larguei essas palavras de maneira manhosa:

- Luísa, o próximo movimento que eu realmente quero dar é sair junto contigo dessa aula e poder te dizer o quanto tua companhia me faz bem.

Luísa largou os halteres no chão quase de maneira alvoroçada. De frente para mim começou a andar para trás com passos instáveis e balançando a cabeça positivamente enquanto se afastava e com aquela voz rouca que eu amava ela disse:

- Daqui 10 minutos então.

Aquela noite foi fantástica, como as próximas noites que se sucederam. Ela era incrivelmente linda e nós tínhamos um relacionamento soberbo, fruto da paixão que queimava sem previsão de término. Eu demorei um mês para conquistá-la e tive um mês para usufruir de toda graciosidade que era sua presença, seus beijos, sua voz rouca no telefone... Cada sentimento pequeno e isolado era agora somado no mar de recordações que dilaceravam a minha alma... Desde pegar sua mão ao levá-la para ao cinema até morder suas coxas malhadas numa luta prazerosa que gostávamos de travar... Ela me completava. Minha mãe conheceu ela e assim como eu, se apaixonou por ela, e triunfava por ter previsto que conheceria alguém na academia.
Um pouco antes de secar essa garrafa de Johnnie Walker que está balançando em minhas mãos minha mãe me ligou, disse para não fazer nenhuma besteira. Ninguém é capaz de tirar essa dor que eu sinto no meu peito, NINGUÉM! Apenas o sangue derramado da pior maneira possível irá apaziguar meu coração... O que pode ser mais trágico que um fator alheio a sua vontade, alheio a qualquer vontade, acabar com a coisa que te fazia acordar feliz todos os dias. Um sedentário, sem vida. Meu sofá marcado pelo formato das minhas costas largas não tinha mais minha companhia a frente da televisão, ela havia me tirado de lá. Eu olho para a cozinha e me lembro dela com seu pequeno nariz sujo de farinha no dia que resolvemos fazer pão aqui em casa. Eu me lembro dela rindo das histórias que eu lhe contava antes de dormir no escuro, quando eu misturava vários personagens místicos em histórias sem sentido. Eu tinha tudo que precisava para crescer como homem, estabelecer uma família, ver que existia muito mais vida além daquela porcaria de emissora... Tantos planos e agora volto ao ponto de partida. Volto a ser o trintão sem vida que apenas tem sua mãe com quem conversar ao voltar do trabalho, o homem a espera do sábado para falar bobagens com os amigos e esquecer dos problemas.
Me ergo e vou até o espelho do banheiro. Olho para meu rosto e não me enxergo mais. Acredito que aquele mesmo ser que tomou conta das minhas ações quando eu conquistei a Luísa tomou o controle da situação para vingá-la. E se depender de mim, ele tem carta branca para isso. Quebro a garrafa de Jonhny Walker contra o espelho e digo com o espírito pesado olhando meu reflexo nos pequenos fragmentos de vidro:

- Essa é a única coisa que eu tenho certeza. Você vai sofrer.


CAPÍTULO 3 – Acidente?

Michel Bastos estava saindo de um bar fortemente embriagado, suas pernas caminhavam com pouca estabilidade e seu segurança pessoal, Ricardo, o acompanhava temeroso que caísse. Fazendo o caminho em direção do automóvel ele a encontrou, para toda dor que permanece em meu peito, ele encontrou Luísa.
Eu jamais, nunca em toda minha vida queria que esse indivíduo desprezível tivesse colocado seus olhos azuis de brilho forte e ambicioso sobre ela. Quando eu me imaginava do lado dela, com seu belo vestido preto na festa de final de ano da emissora me perturbava a idéia de ele colocar seus olhos sobre ela, aquele olhar de víbora sempre atento. E a infeliz coincidência do destino fez seu trabalho por mim. Luísa saía de sua academia que ficava perto deste bar comumente frequentado pela alta sociedade, seguindo em direção ao meu apartamento quando ele, escorado em seu belo carro esportivo a abordou:

- Uma bela garota talvez queira companhia para casa.

Luísa respondeu avidamente:

- Dê o fora seu porco!

Michel Bastos estava acostumado com alguns foras, mas todos delicados e raros. Ele gostava de abordar mulheres nas ruas e às vezes não obtinha sucesso, mas mesmo assim, elas ficavam lisonjeadas de terem sido flertadas por Michel Bastos. Nunca havia escutado uma recusa tão expressiva desde que se tornou famoso. Um homem de poder magoado e bêbado pode se tornar uma criança vingativa e inconsequente.

- Você sabe com quem está falando?
- Não faço a menor idéia e pouco me importa.
- Hoje eu vou te ensinar a ter modos... Ricardo segura ela.

Ricardo fitou o chefe com dúvida. Não gostou da ordem recebida pois não fazia idéia de qual era a intenção de seu chefe, mas depois pensou que jamais ganharia tanto dinheiro quanto com aquele figurão e este pensamento financeiro talvez o tenha remetido a Fabianne, sua noiva. A Lucas seu filho pequeno. E em um segundo a hesitação passou e o dever como pai de família assalariado falou mais alto, agindo contra sua vontade moral. Com um abraço rápido e preciso ele imobilizou Luísa.

- Coloca ela no carro Ricardo.
- O que você está fazendo seu...

Antes que Luísa pudesse terminar sua frase Ricardo abriu a porta do carro e a jogou para dentro, evitando que ela fizesse muito alarde. O estacionamento estava vazio, Ricardo olhou para os lados e ninguém havia percebido aquilo que tinha sido realizado.
Michel Bastos entrou na porta de trás e assim que a fechou foi fortemente golpeado no rosto por Luísa. Ele tentou imobiliza-la, mas ela era rápida e esperta e como Michel estava com os reflexos muito debilitados pelo álcool, não teve chance alguma. Luísa sabia golpear, tinha amigos instrutores de academia que faziam diversos tipos de lutas e durante algum intervalo no trabalho eles gostavam de falar sobre isso. Luísa batia com o punho fechado e mantinha a guarda com a mão esquerda. Depois de 6 socos diretos em seu rosto o seu nariz deu um esta-lo e se fragmentou em pequenas partes. Sua cabeça bateu mole no vidro da janela lateral e tonto ele começou a resmungar num tom impreciso e choroso. Ricardo entrou na porta da frente e percebendo o estado de seu chefe imediatamente saiu do carro e abriu a porta traseira sendo surpreendido por Luísa que saltou furiosamente de lá, porém, como um pai que segura uma criança grande no colo, o grande e forte segurança a jogou de volta para o carro e entrou junto na traseira fechando a porta. Assim que entrou ela tentou diferir um golpe em seu rosto mas ele a imobilizou novamente e enquanto ela se debatia, Michel Bastos foi até o porta-luvas resmungando palavras inaudíveis e pegou uma arma, sem que nenhum dos dois percebesse uma bala foi disparada. O silêncio foi feito. Ambos caíram mortos, cada um para um lado. O banco de couro impermeável fazia o sangue grosso e espesso correr pelo estofamento desenhando ramificações que se dispersavam da correnteza principal que emergia da cabeça de ambos, uma pequena lagoa vermelha no assoalho do carro se formava e aquele ato, jamais poderia ser desfeito.
Mesmo bêbado, Michel Bastos sabia que tinha feito algo horrível, porém o sentimento que invadiu sua alma foi de perigo e não remorso. Se Michel tivesse se arrependido de tal ato seria em detrimento a si próprio que poderia também sair prejudicado, e muito, dessa história. Sua frieza diante tal situação poderia revelar que não foi a primeira vez que ele presencia, ou realiza, tal barbárie. Pegou o telefone ainda tremendo e com dificuldade em apertar as teclas ligou para seu advogado. O Advogado chegou 5 minutos, antes da polícia, e deu todas orientações para Michel.
O grande escalão da emissora passou a madrugada inteira na casa de Michel Bastos e alguns jornalistas já rondavam sua casa que estava muito bem protegida por seguranças contratados por Dorete. Esse tipo de escândalo seria péssimo para Dorete, pois afetaria diretamente a imagem de sua emissora e ela resolveu ajudar seu pupilo da forma que fosse preciso. Na grande sala de estar Michel Bastos ficava quieto como uma criança que acabara de aprontar enquanto seus pais, os chefões da emissora, decidiam como proceder. Muito foi especulado, pesquisado, podres foram revirados e então o plano estava pronto.
Michel Bastos iria a tribunal com acusação de duplo homicídio porém Dorete tinha entrado em contato com Fabianne, mulher do segurança Ricardo, e feito uma oferta generosa caso ela testemunhasse que seu marido havia voltado a usar drogas e estava muito ansioso e tendo algumas alucinações. Como Ricardo já tinha passagem pela polícia por porte ilegal de arma de fogo e porte de drogas o jogo se viraria contra ele, sendo o responsável por sacar a arma em um momento indevido, fruto de uma alucinação, então Michel tentou sacar a arma da mão do segurança e a mesma acabou disparando. O fato de Luísa estar no carro de Michel Bastos foi justificado por ela ser uma fã e eles foram até o carro buscar uma caneta para o autógrafo. Enquanto Michel procurava a caneta Ricardo teve um delírio, pensou que Luísa estivesse assaltando e jogou ela dentro do carro, sacou a arma e então vocês já sabem, uma mentira havia sido criada para salvar a pele deste inseto. Fabianne por ser muito pobre e ter um filho pequeno para criar aceitou depor contra seu marido, sabia que mancharia a honra dele, porém o mais importante agora era pensar nos vivos, na barriga de seu filho que roncava de fome, pensava ela.
O julgamento foi feito, Michel havia sido absolvido. 6 meses se passaram e ninguém se lembrava mais da história, somente eu, que acordava todos os dias 30 minutos mais cedo para poder ficar do lado da lápide de Luísa, durante as gélidas manhãs de Julho. Depois de um relativo momento de silêncio ao seu lado, ou do bloco de mármore que agora representava ela, eu sempre me despedia dizendo as mesmas palavras:

- Vou fazer justiça por você Luísa, vou fazer justiça pelo nosso amor.


CAPÍTULO 4 – No palco

Todos os dias de manhã, ver o nome de Luísa grifado do mármore do lado de sua foto com aquele sorriso fino e afetuoso me dava força. Renovava meu ódio.
Eu continuava escolhendo os ângulos, as câmeras que colocavam Michel Bastos no ar, porém eu olhava de uma maneira diferente para todas aquelas imagens. Eu já tinha pensando tantas vezes na minha vingança, no corpo de Michel Bastos estendido no chão que era praticamente como se o crime já tivesse sido cometido. Como se a vingança já houvesse sido feita. Michel já estava morto e simplesmente não sabia. Ver ele vivo fazendo suas piadas no palco me faziam pensar nele como o ser mais estúpido do mundo, tão estúpido que despertava uma camada de simpatia sobre meu mar de ódio.
Se você pegar um camundongo e colocar ele em uma jaula com o intuito de fazê-lo sofrer, você vai querer observá-lo antes. Ver ele no seu estado normal, ver ele feliz caminhando em círculos como se nada estivesse acontecendo. Somente depois você tortura ele para poder ter uma comparação, para poder criar um prazer maligno no seu ato, pois caso o camundongo estivesse rastejando e grunhindo de dor inicialmente, matá-lo poderia ser visto como um gesto de piedade e não de crueldade.  Eu estava observando meu camundongo, mas a vontade de fincar um ferro na sua barriga branca era algo que eu não podia mais conter, vê-lo pulando no palco com seu sorriso branco, tão branco que chega a ser falso, me dava um parâmetro ótimo para comparar o póstumo sofrimento.
Durante a noite, passei pelo meu espelho quebrado do banheiro e disse alto, para todas minhas imagens refletidas nos fragmentos de vidro:

- Amanhã.

Era sábado. Naquela tarde eu mandei um e-mail para Michel dizendo que tínhamos que fazer uma nova vinheta e uma cena seria ele caminhando pelo cenário sozinho, triste. Então as luzes se acendiam, as dançarinas entravam e o slogan surgia: “Felicidade povo brasileiro! Michel Bastos chegou!”. Ele respondeu o e-mail pedindo se era necessário, confirmei que sim.
Então domingo de manhã estava lá ele, entrando no cenário. Desci da cabine de comando e fui cumprimentá-lo. Ao tocar sua mão eu apertei firme e senti vontade de socá-lo até esmagar seu crânio, mas me contive com dificuldade. Disse entre os dentes:

- Bom dia Michel, se lembra de mim?
- Não. Mas você só pode ser o cara das vinhetas, certo?
- Certo...

Fiquei olhando para seu rosto sem dizer absolutamente nada. Desconfortável ele indagou:

- Algum problema? Vamos logo gravar hoje é domingo!
- Certo...

Michel Bastos havia dito algo meio baixo, possivelmente idiota, imbecil... Não consegui compreender.
Subi até a cabine de comando e fiquei atrás do vidro que peliculamos pela manhã. Michel Bastos não perceberia este detalhe e se percebesse, não comentaria nada. Era domingo e ele apenas queria ir para casa, comer alguma dançarina ou quem sabe ficar bêbado e acabar com a vida de mais alguém. Liguei o áudio e pedi para ele enquanto colocava um par de luvas cirúrgicas nas mãos e olhava para meu martelo:

- Está me ouvindo Michel?
- Sim... Onde estão as dançarinas? Elas não tinham que entrar aqui depois dançando?
- As dançarinas não vieram Michel Bastos.
- Mas que merda! Então por que você não cancelou?
- Porque temos outra tomada para fazer.
- Seu idiota! Faz perder meu tempo em vir até aqui, por que não deixou para um dia que poderíamos terminar tudo de uma vez só???
- Hoje nós vamos terminar tudo de uma vez só Michel Bastos. Você se lembra da Luísa?
- Que Luísa?
- A que você matou com um tiro na cabeça. Junto com seu segurança.

Michel se aproximava com fúria em direção a cabine de comando quando dei um grito:

- Pare agora! Olhe para seu joelho.

Michel baixou sua cabeça com a crista de gel importado e viu uma ponto vermelho fixamente colado em seu joelho. Laser. Das caixas de auto-falante do cenário novamente minha voz ecoou:

- Michel Bastos, eu estou com um rifle de precisão diretamente apontado para seu joelho. A bala é do tamanho de uma caneta, dessas bem grandes e caras que você usa. Se eu apertar o gatilho seu joelho vai explodir e você vai cair no chão como uma árvore para um lado, só que bem mais rápido... A dor deve ser terrível. Já pensou em dar o comando de mexer seu dedão do pé e nada acontecer?

Naquele exato momento Michel Bastos suava frio e em estado de choque mexeu seus dedos do pé.

- Agora dê alguns passos para trás e volte para o lugar onde você estava. Hoje é domingo, tem dois seguranças na entrada da emissora a praticamente quilômetros daqui e mais nenhum neste cenário. Todos estão preocupados com o programa ao vivo que está sendo feito do outro lado. Meu rifle não faz muito barulho sabia? E como esse cenário é acústico, ninguém vai escutar nada. Principalmente seus gritos de dor se você mentir para mim, mas no momento, eu só quero conversar.

- Você está cometendo um engano cara! Minha inocência já foi provada e eu não fiz absolutamente nada! A culpa foi toda daquele traficante de merda que era meu segurança! Você não vai querer fazer uma besteira dessas e acabar sendo preso depois! Larga essa arma e vamos embora, eu não vou dar queixa nenhuma... Eu vou pedir para Dorete te encaminhar para algum psicólogo e assim você...
- CALA A BOCA! O único que tem algo a perder aqui é você. O único que precisa de ajuda aqui é você. Agora restrinja-se a responder apenas o que eu te perguntar com toda sinceridade, se você mentir uma vez para mim eu te mato. Olhe para seu joelho.

Michel Bastos olhou para baixo e não viu absolutamente nada. Olhou um pouco mais para cima e agora a mira estava exatamente em seus testículos. Num golpe alucinado de medo ele se virou e saiu correndo em direção a saída. Um disparo partiu o vidro da cabine de comando e perfurou o sapato de couro destruindo o seu calcanhar e fazendo ele cair no chão bruscamente.
Inconformado com a situação saquei minha arma 9 mm, peguei o martelo e os dois pedaços de corda e fui para o cenário para me deparar com aquele verme tentando se erguer enquanto gritava de dor. Chutei-lhe o rosto com toda força e ele caiu de costas ainda consciente segurando o seu pé, ou parte do que sobrava. Chutei-lhe o lado do corpo e assim ele se virou de bruços. Amarrei o mais forte possível na altura de seus pulsos, as cordas quase cortavam sua carne e suas mãos estavam ficando em questão de segundos roxas. Peguei sua crista de gel molhada e num puxão forte praticamente lhe arrastei até o centro do cenário, ele tentava me acompanhar e cambaleava saltitante dando urros de dor toda vez que seu pé deformado tocava o chão. Ofereci uma cadeira e ele se sentou. Puxei outra e me sentei na sua frente. Com a mão segurando a 9 mm pedi para ele:

- Voltando. Você soube quem era a Luísa? Não ouse mentir para mim.
- Eu preciso de um médico, por favor eu preciso de um...
- Você soube que ela teve que ser enterrada com o caixão fechado? É claro que soube... A bala acertou no nariz dela... Sabe como que ficou o nariz dela? Você se lembra como que ficou o nariz dela?
- Por favor isso tudo é um engano...
- Você não sabe pois apenas fez uma micro cirurgia que colocou seu nariz de merda no lugar... Mas essa cirurgia foi dinheiro jogado fora sabia?

Dei minhas costas para Michel Bastos e voltei para ele com o martelo na mão. Sem dizer nada eu segurei o topo de sua cabeça e martelei seu nariz de perfil, fazendo o mesmo se separar de seu rosto. Gritando muito o puxei novamente pelo cabelo e joguei seu rosto contra um espelho do cenário.

- Veja seu merda! Foi exatamente assim que ela ficou! Ela era tudo para mim, ela era minha única possibilidade de ser feliz nessa vida! E você estragou tudo! VOCÊ SEMPRE ATRAPALHOU MINHA VIDA, VOCÊ É UM MALDITO CÂNCER QUE ME FEZ SOFRER AOS POUCOS E NÃO CONTENTE COM ISSO RESOLVEU MATAR A MELHOR PARTE QUE EXISTIA EM MIM!

Segurei sua crista e bati contra o espelho o quebrando em vários pedaços. O formato daquele espelho ficou muito parecido com o da minha casa. Michel Bastos estava agora com os as duas pálpebras salpicadas e com pequenos vidros reluzentes em seu rosto, a perda de sangue do buraco que antes era seu nariz estava quase tirando sua consciência. Soltei seu cabelo e ele caiu apagado no chão. Peguei o segundo pedaço de corda e amarrei fortemente suas pernas. Ele estava começando a ficar da forma como que queria, apenas faltava o gran finale. Olhei para a cabine e pude sentir o ar de aprovação, mesmo não o enxergando.
Arriei suas calças. Fortemente amarrado tanto nos pés quando nos pulsos ele não conseguia se mexer. Peguei a garrafa de Johnnie Walker e coloquei ela no chão. A mesma garrafa que eu sequei quando soube da morte de Luísa. Segurei a cintura do corpo deitado de Michel e a ergui o suficiente para colocar a garrafa abaixo de seu ânus. Larguei seu corpo e me certifiquei que o bico da garrafa estava introduzido em seu corpo. Era como um artigo de decoração, uma peça de puro equilíbrio. Aquela garrafa amparava o corpo de Michel que com as mãos amarradas para trás de seu corpo e as pernas mantidas juntas e espichadas para frente não possibilitava maneira alguma dele sair da situação e a garrafa poderia quebrar a qualquer momento.
Depois de alguns minutos que parecerem uma eternidade ele abriu os olhos totalmente imprecisos e fez uma cara de sono, como se tivesse despertando de um sonho agradável. Demorou um momento e ele percebeu a situação que se encontrava, os olhos arregalaram de seu rosto e o pânico violou sua mente mostrando que tudo era real. Aqueles mesmos olhos azuis arregalados e grandes como ovos de codorna me olhavam e brilhavam como se quisessem uma explicação, como se me pedisse para voltar no tempo e não fazer nada disso. Para minha deliciosa surpresa a garrafa ainda não tinha sido quebrada e então ele percebeu que havia algo debaixo do seu corpo.

- Michel, eu esperei você acordar só para presenciar comigo como que tudo termina.

A boca muda e seus grandes olhos azuis acompanharam o movimento enquanto estava indefeso, frágil e imobilizado... A única coisa que ele podia fazer além de olhar seria gritar, mas ele preferiu o silêncio. Bati o martelo com toda força sobre sua barriga fazendo com que seu corpo descesse sobre a garrafa que se partiu em mil pedaços... Seu grito de dor rompeu as cordas vocais e desfez o silêncio num som profundo e sem fim que ainda hoje vive em minhas lembranças. Olhando para sua boca totalmente aberta segurei sua garganta e interrompi aquele grito ensurdecedor, compenetrei-me naqueles olhos azuis machucados e sem soberba, que precisaram encarar a morte para perder sua repugnante superioridade... Então eu vi a morte o buscando e as cortinas de sua vida estúpida e aparatosa se fecharem, seu corpo se debatia e se esfregava sobre os pequenos cacos de vidro, o som provocado por estes cacos entrando em sua pele e batendo no chão do estúdio parecia música.
Rapidamente peguei seu corpo e fui até a camionete luxuosa de Dorete e o joguei no porta malas. O pai de Luísa, o senhor Antônio, estava na cabine de comando e desceu rapidamente para o cenário vestindo o uniforme de limpeza da emissora. Disse a ele:

- Antônio, hoje nós fizemos justiça. Limpe tudo isto de maneira impecável e depois ligue para esse número. Diga que você quebrou aquele vidro enquanto o peliculava, apenas quebre ele melhor para tirar o formato da bala. Assim que conseguir pegue seu carro, você sabe onde tem que me encontrar. Ficou alguma marca no chão?
- Só aquele tiro do rifle.
- Depois de limpar tudo, coloque um vaso de flor na frente.

Dei um forte abraço naquele único homem que sentia agora o mesmo alívio que eu sentia. Entrando no carro de Dorete coloquei a mão sobre seu rosto, estava gelado.
Ontem, o mesmo e-mail foi enviado para Dorete, porém com o horário 30 minutos mais cedo. Como ela era extremamente pontual foi o tempo necessário para abordá-la quando saia de seu carro e usar a 9mm na sua nuca, ela nem mesmo soube como morreu. Depois eu estacionei o seu carro dentro do cenário, na parte dos fundos e a deixei no banco do carona. Esta fedendo demais aquele carro.
Arranquei e parti em direção a um grande matagal... Uma viatura da polícia passou por mim, senti meus ossos gelarem, mas nada aconteceu. Entrando no matagal sai da camionete e abri a porta do banco do carona e também do porta mala. Joguei o corpo de Michel Bastos ainda com as calças arriadas no banco de trás e pude ver o bico da garrafa ainda eu seu ânus, depois arriei também as calças de Dorete e a deixei junto com Michel no banco. Dei alguns socos no vidro blindado da camionete com a mão de Michel e depois peguei suas unhas e esfreguei elas pelas portas e teto, até quebrarem. Pus um cigarro na boca de Michel no seu rosto deformado e abri uma garrafa nova de Johnnie Walker, o último que havia em minha casa. Joguei metade do líquido no acento e o resto deixei dentro da garrafa sobre o banco. Fiz outra trilha de álcool que terminava abaixo do tanque de gasolina. Quando notei Antônio tinha estacionado seu carro no lugar combinado e eu atei fogo no líquido sobre o banco do carro, depois na trilha que ia até o tanque. A fogueira começou a crescer na parte interna do carro... Pensei naquele cabelo armado de Dorete em chamas... O carro explodiu. Entrei no automóvel de Antônio e sem dizer nada um para o outro e com a consciência limpa e a alma leve partimos.
2 meses depois estou em casa assistindo a resolução do caso Michel Bastos e Dorete e o investigar policial, meu querido Antônio, curiosamente para a minha emissora diz tais palavras:

- Aquele matagal é um lugar característico onde pessoas fazem sexo dentro de seus carros. A explosão danificou muito o processo para encontrarmos provas, porém hoje tivemos o testemunho de Shayane...

Sorri maquiavélico na frente da televisão, tinha certeza que a moça do tempo acabaria falando bobagem para nosso triunfo.

- E sobre juramento ela informou que Dorete e Michel tinham um caso amoroso. Juntando isso ao fato de encontrarmos as bebidas, eles fumarem, o que evidencia o caso é que acabou acontecendo um acidente e tragicamente o carro explodiu.
- Investigador Antônio, uma pergunta. Não poderia um assaltante ter matado eles dois e depois tacado fogo no carro?
- É impossível pelo fato do vidro ser blindado e não houve nenhum disparo... Somando isso com o fato de nenhum deles dois ter inimigos e seus seguranças nesse dia foram dispensados, a polícia fecha o caso considerando ele um acidente trágico.

Pensei com quem Luísa havia aprendido ser tão esperta.

Alguns instantes depois meu celular toca e uma voz me pede:

- Filho! Por que não me ligou ontem? Está tudo bem contigo?
- Tudo bem sim mãe... Realmente hoje eu acordei melhor, sabia que estou pensando em voltar com a academia?




Escrito por Tiago André Vargas em 02/06/2010

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Tiago André Vargas

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Pesadelo de camaleão é que tem só uma cor.

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