As árvores ficam

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Depois de um tempo ninguém mais sabia se era Juliane ou Juliana. Julliane. Julianna. Tantas formas de se diferenciar. Relógios de 8 ponteiros para quê? Aquela era a Juli. Ninguém a chamava de outra forma e quem ousava abreviá-la com um sonoro “Ju” era recriminado piamente: É Juli.
Aquela noite estava quente, podia sentir o sangue da sua juventude clamando por gente, por pele suada exprimida em roupa limpa, por esbarrão com copos altos cheios de bebidas carregadas por pessoas vazias.
Juli vamos sair?
Juli vamos sair?
Juli, vamos?
Juli?
E seu telefone tocava sem parar nos finais das tardes de sábado, como há de acontecer com a maioria das belas garotas carregando seus celulares rosas.
Sentiu motivação necessária para abandonar o abrigo escolar e abrir sua caixa de maquiagem. Abrir as portas, ligar coisas, aumentar o volume, se produzir sem música lhe era impossível.
Abriu por fim a sacada a fim de banhar seu delicado corpo no mundo lá fora e mensurar a temperatura que lhe cercava com a epiderme. Vestiria saia?
Então ela viu.
Na larga calçada em frente ao seu condomínio passava uma garota de feições tão parecida com as suas, com as mãos seguradas por um garoto que parecia ser tão estúpido, de pele tão jovial e espessa barba negra vestindo uma camiseta que carregava outro barbudo que ela não poderia reconhecer.
Olhou sem esperar nada.
Como todo transeunte, nada se espera além que continue caminhando até fugir do nosso alcance. Então algo mágico aconteceu. Aquele rapaz desprendeu-se abruptamente das mãos de sua namorada e saltou sobre a cerca do condomínio agilmente, como um bom primata escalou a mureta e apoiou os pés sobre as pontas da cerca impulsionando-se sobre elas.
Caiu com os dois pés juntos na entrada provocando um som seco.
Um grito parou na garganta de Juli.
Um grito de invasão, mas não de propriedade, talvez de seus sonhos.
Ele arrancou uma manga do simpático pé que ficava ao lado do parquinho e jogou sobre a cerca. A garota de sorriso fantástico pegou-a com destreza. Arrancou outra e fez o mesmo, esta ela quase deixou cair, mas conseguiu se recompor evitando que o fruto no chão se espatifasse.
O rapaz fez o mesmo movimento para sair e o som seco dos seus pés bateram de volta para a calçada.
O casal se olhou, irradiavam cumplicidade. Uma de suas mãos se abraçaram, a outra levou o fruto até a boca. Mastigaram um pouco em aparente sincronismo e depois um beijo foi trocado enquanto saíam com os corpos tortos e abraçados através daquelas calçadas de pedras tão bem encaixadas que pareciam ter sido feitas apenas para eles passarem.
Juli fechou a sacada.
Desligou o som.
Inventou uma meia mentira dizendo que não iria mais sair por estar doente. Depois sozinha assistindo televisão com seus pais em um silêncio sorumbático percebeu que doente estava, doente daqueles canais de televisão mostrando atrizes tomando banho de mar, atores saindo de chuveiros, histórias contadas em academias, em piscinas, em clubes, em jantares com candelabros. O conceito de amor confabulado entre infinitas sessões de abdominais, o maldito jargão criado pelo personagem carismático que fará todas as crianças do colegial lhe imitarem apenas para serem legais. Serem aceitas.
Em uma pérfida noite de sábado o mundo quente em festa, vibrando no som e nas luzes que revelam através da escuridão um belo rosto verde. Um feio rosto azul. Pessoas gritam, celebram, colocam as mãos para cima e repetem o movimento que alguém de cabelos coloridos faz na cabine de som. E todos sorriem. Por quê?
Juli não grita. O mundo celebra sua esmiuçada liberdade dada em tom de piedade por uma mão cheia de pó de arroz enquanto ela pensa quando, mas quando, alguém vai lhe roubar uma manga e lhe falar com palavras beijadas que toda essa merda pode ser trocada.
Saiu pela porta sem dizer nada. Assistiu a contagem regressiva dos andares do elevador, atravessou este após o clássico sinal e direcionou-se para o parquinho, olhou para o pé de manga. Viu algumas solitárias estrelas no céu enquanto espichava seu corpo para alcançar o fruto. Arrancou. Olhou para aquela manga por alguns segundos enquanto girava em sua mão. Mordeu ela. Doce. Fechou os olhos e sentiu a paz que nenhuma outra coisa naquele dia lhe poderia oferecer.

Autoria de Tiago André Vargas
Fotografia de Oleg Breslavtsev.

Tiago André Vargas

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Pesadelo de camaleão é que tem só uma cor.

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