Meninas não jogam roleta-russa

by 17:18:00 1 comentários
Duas pessoas e uma caixa.

- Eu tinha que te surpreender certo?

Ela não sabia o que responder enquanto dobrava vertiginosamente seu pescoço, o queixo quase tocando o peito para que seus olhos pudessem contemplar a marca do biquíni. Por que lhe agradava tanto contemplar este contraste cutâneo? Mistérios do ego.
Puxou seu tomara-que-caia mecanicamente, sistemático como uma prensa, porém desta vez, estranhamente, sentiu o polegar esquerdo atritar-lhe o mamilo fazendo com que a manobra tão costumeira quase saísse falha. Falha mas não trágica, afinal, nada que ele já não tivesse visto. Qual era a pergunta mesmo? Respondeu com outra:

- O que essa porra de caixa ta fazendo no meio da mesa?

Ele sorriu. Aquele sorriso sangrento de quem sempre escolheu adornos vermelhos para seus braquetes. Agradava-lhe ver uma garota tão plástica adotar o linguajar de um homem de 40 embriagado na frente da TV assistindo seu time perder novamente.

- Você não viu aquele filme babaca e ficou me torrando o saco? Não importa quantas vezes você respirou e sim os momentos que perdeu o fôlego. Não era isso? Que eu tinha que te surpreender e tal? E depois tu foi para a praia com tuas amigas e voltou com essa cara de culpa.
- Que cara de culpa?
- De quem deu pra um babaca e não sabe se fala ou não. Ou talvez como falar... Certo?
- Você está muito idiota, sério eu vou embora...

O sorriso vermelho metálico surgiu novamente antes de contornar a situação.

- Calma, não quis dizer isso. Eu tenho uma surpresa pra ti nessa caixa... Para provar como pensei em ti e também em como quero te surpreender e te fazer se sentir bem... Te fazer sentir viva...

Dentro de seu bronzeado perfeito realçado com óleos de frutas desconhecidas ela quase deixou escapar um Ai que fofo! Se compôs, enfim, estava braba. Deveria estar pelo menos, mas tudo que conseguia conservar era o incontrolável impulso de abrir aquela caixa e ver o que seu bonito e estranho futuro quem sabe namorado havia lhe comprado.
Um anel?
Um colar?
Uma pulseira?
Um brinco?
Com aquele sorriso inabalável tão estático que lembrava uma tatuagem, por fim, ele abriu a caixa.
Um pano preto encobria o misterioso presente e a absoluta certeza que era uma jóia lhe invadiu o peito. Estava errada.
Após tirar o pano de dentro da caixa, sedoso e negro como o pelo de um gato amaldiçoado, colocou-o estendido sobre a mesa alcançando o tamanho aproximado de um lenço aberto.
Pôs uma pequena cápsula sobre o pano negro, um objeto metálico, tanto quanto seu sorriso, mas não tanto quanto uma jóia.
Bala.
Não do tipo que se chupa e sim do tipo que se mata.

- Eu pensei em muitas formas de poder te fazer sentir viva... Mas nenhuma chegou perto desta. Já ouviu falar em roleta russa?

Como um mágico tira um coelho da cartola, ele tirou um clássico revolver 38 de dentro da caixa.
Embasbacadamente ela perdeu o controle do maxilar.

- Dizem que os russos faziam isso para demonstrar coragem. Legal não é?

Sem esperar resposta alguma de sua companhia ou mesmo erguer o rosto para constatar seu previsto semblante de incredulidade, o feroz garoto abriu o tambor com um gesto rápido alimentando-o com reluzente projétil que vertiginosamente aguardava sobre a mesa. Girou o tambor. O som mecânico arranhando o eixo, a bala prontificada em um dos seis compartimentos girando mais rápida que a visão humana. Apontou a boca da arma para os temerosos olhos felídeos de sua mal compreendida paixão.

Tac.

- Foda não é?

Ria como uma criança enquanto seus dentes avermelhados pichavam temor na alma daquela agressiva garota, pintura feita com tinta que jamais pode ser removida.

- A probabilidade de disparar é apenas de 17%. Mas, agora é a tua vez... E como um tiro foi dado e não disparou, as chances de você me matar são de 20%... Na verdade deve ser mais, pois tem uma regra que eu não me lembro como se calcula...

Estendeu a arma. Ela aceitou. Embrulhou seu lábio de encontro ao nariz, uma careta que fundia mistos de emoções primárias tais como ódio, avareza, vingança e repulsa.
O que pode ser feito contra alguém que ameaça tirar a sua vida?
Puxou o gatilho uma vez.
Duas vezes.
Três vezes.

- Quantos por cento agora seu filho da puta?

Mirou diretamente para um quadro do John Lennon estampado na parede e o disparo seguinte abriu um rombo dentro da lente circular do famoso músico. O sorriso vermelho se escondeu e em seu lugar verdadeiro pânico se abrigara.

- Era para disparar apenas uma vez! Eu tomei cuidado para a bala não ficar nos dois primeiros disparos!
- O que você esperava com isso? Que eu ficasse fascinada? Excitada talvez?
- Sei lá o que eu queria... Desculpa...
- Bem, agora é simples: Nunca mais fala comigo ou se aproxima de mim.

Colocou a arma na cintura e partiu. Por legítima defesa ou simples falta de percepção tomou-lhe o revolver levando-o para sua casa. Arrependido pela patética infantil encenação realizada e ainda tremendo diante real possibilidade de ter um buraco negro em seu crânio tal como o quadro que aturdido olhava, no dia, não sentiu falta da arma.

Toda noite, antes de dormir, despida ela contemplava a quintessência da feminilidade em suas marcas imaculadas exprimidas pelo gigantesco bronzeado pecaminoso. Colocava o revólver em seus dedos como se fosse um anel de noivado e lembrava-se dele.
Ela havia perdido o fôlego temerariamente, eternamente, sabia que jamais se esqueceria do sorriso metálico sempre vermelho.
O plano do jovem tinha dado certo, todavia de uma forma errada... Por que ela não pediu simplesmente uma jóia?

Uma pessoa, outra pessoa, nada de caixa.

Autoria de Tiago André Vargas
Foto encontrada aqui.

Tiago André Vargas

Developer

Pesadelo de camaleão é que tem só uma cor.

Um comentário:

  1. A caixa pode ser o mundo e duas pessoas, bom aquilo que a gente busca idealizado.

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