A veleidade também se levanta

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A história da humanidade é a história das guerras. A história de um homem é a história da humanidade. O mundo é bão, Sebastião; que agora o repudia: acha-o por demais Salgado. Tempero de lágrima é sal, nunca a gosto. Cães gostam de lágrimas, secar-lhe-ão, pelo sal, secar-lhe-cão, pela fidelidade. O que eu quero dizer é que você tem que fotografar o mundo e comover as pessoas, de preferência antes que elas peçam suas pizzas. A comoção é opcional, os farináceos inevitáveis. Está tudo bem assim; alguém se comoveu olhando um retrato e depois o esqueceu nas bordas da memória de catupiry, entenda, a arte nunca venceu e nem vencerá a fome, está tudo bem assim, a heurística só excita a alma quando não existe o corpo, e, para anular o corpo, só satisfazendo-o, embalar essa grande matéria que nunca deixará de ser um bebê; Byron vai dizer: O único jeito de findar um desejo é entregar-se a ele, que assim seja, de coração aos fisiológicos: Dormir, comer, defecar. Estes nunca fizeram mal a outrem, diferente do sexo; Cleópatra sabia muito mais de pirâmides do que Maslow. Sexo é necessidade do ego e do ovo, do ovário e do salto, da fuga e do asfalto, do espelho e da esfinge, do pau e do selfie. Freud toca nas trompas do trompete um jazz triste que incomoda uma legião de cães urbanos. Ou vai dizer que alguém tem filho preocupado em manter a espécie? Que raio de espécie? Se fosse assim tirano algum teria filho, de outra maneira, não poderia com ideologia matar o dos outros. Perpetuar a espécie? Se, mais que A espécie, eu sou O mundo! Como é que se dorme com um vizinho desses? Que o punhal de Macbeth nos proteja, pois é a entrega incomensurável dos desejos dessa minoritária e poderosa raça - os porcos dípodes de barriga dourada – que reflete a miséria premeditada, por eles tão bem escolhida, uma vez que, a tristeza cinza contrasta com maestria suas suntuosas barrigas. Eu vou dizer. Só voltando para Gênesis mesmo, começar pelo começo: acaba-se com a fome, faz-se um teto, transporta-se para longe as fezes (saneamento básico é uma expressão desaforada, jargão político social que não diz nada). O que realmente diz alguma coisa é febre tifóide, cólera, hepatite A, giardíase, leptospirose. Tem gente que não consegue comer se alguém contar uma historieta sobre fezes, só à alusão ao excremento já lhe causa repúdio, imagine se alimentar próximo não de uma, nem duas, mas das fezes de toda uma aldeia, acumulando-se dia após dia. Saneamento básico, não é básico, não é roupa preta, só se for de luto, pela indiferença desse grande velório festivo que é a nossa espécie. Primeiro comer, depois abrigar, por fim adormecer. Só depois desse estágio o sonho é permitido. Então lemos Hemingway e queremos viajar. Espanha, África. Escutaremos músicas. Olharemos fotos, de preferência, as que nelas não estejamos. Está tudo bem assim. Então nos deparamos com a fotografia de alguém privado de tudo que nos falaram que é básico, essencial, fisiológico, milhas e milhas deste maltratado corpo poder adormecer e depois sonhar. Inadmissível! Um ficou para trás! Você disse que já são mil? Como assim milhões?! Na quantidade, seremos tocados? Nessa foto, única, sim. Um nó nas tripas pela mão da angústia, mas que, inevitavelmente, será desfeito pela fome imperiosa que toca na porta do estômago dos mais e dos menos afortunados. Pediremos uma pizza. É assim que tudo termina?
A história da humanidade é a história das guerras. A história de um homem é a história da humanidade. Se tiver uma orquídea peristeria na sua casa e você não deixá-la morrer de fome, é pouco. Ainda assim, é algum tanto. A história da desumanidade, é a esperança. Talvez não esteja tudo bem.
Assim.

30.08.2015

Tiago André Vargas

Fotografia de Sebastião Salgado.

Obs: Esse conto só nasceu pela influência do documentário O sal da Terra, vida e a obra do fotógrafo Sebastião Salgado. O título é emprestado do livro O sol também se levanta, de Hemingway. Ainda, o cão a lamber lágrimas é referência ao cão da fotografia, mas, também, ao cão Achado: personagem da bela história de Saramago no livro A caverna, cão este que em uma linda passagem se põem a lamber as lágrimas do dono.




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Tiago André Vargas

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Pesadelo de camaleão é que tem só uma cor.

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